E a vida nos atropela

MAS SOMENTE SE PERMITIMOS ( e quando ).

Descubro-me grávida em janeiro porque nem tive tempo de me perceber em dezembro na agonia do final das aulas e do planejamento de 2008. Trabalho as férias inteirinhas para ganhar um extra. Depois começo um ritmo alucinado com dez turmas em sala de aula e mais cinco disciplinas para estudar no curso que resolvi fazer para alcançar um up grade na profissão. Isso significou trabalhar todas as manhãs de 7 h às 13 h e todas as noites de 19h às 22h40. O meio termo significa que eu tinha que almoçar, planejar, estudar, corrigir, descansar, ir ao médico etc etc etc

Traduzindo: a vida quase não ocorreu. Muito menos pôde ser posta em palavras. Por isso não houve tantos posts, por isso não houve diversidade, por isso não houve riqueza. Não havia vida. Mas não falo da vida comezinha, subreptícia, arrastada no correr dos dias e na contagem regressiva dos tempos (que fazem todos aqueles que não aguentam mais). Faltou-me a vida cheia, a vida alegre, a vida divertida. Até para sofrimentos, sobrou-me pouco tempo. Nada de viver intensamente.

Além do mais, encher o leitor com as lamúrias de um professor cansado não era meu objetivo. E olha que nós, professores, todos, temos muito bem do que reclamar. Lugar-comum total.

Falar do que tenho visto também nas salas de aula como aluna não era meu propósito porque, como o blog não é anônimo, não queria colher inimizades aqui e ali.

Cadê as viagens? Não ocorreram. Cadê os passeios? Foram curtos, pequenos, só para respirar de dentro da caixa d’água em que me meti. Cadê as horas de gastronomia, de experimentos na cozinha? As aventuras urbanas? A descoberta e os olhares pela cidade?  Que… nadica de nada.

Então a natureza, que é muito sábia (como reza o velho clichê), deu-me um stop total. E a gravidez vai ser o ponto de mutação. É. Mais um deles.

Vem uma menininha aí. E eu preciso dela para distribuir todo o meu tempo, para doar-me, para enchê-la de todo o amor que eu tenho incontido neste corpo tão humano. É uma menininha para amar, para ser amada com todas as horas do meu dia. É uma família nova que se inicia. Uma família. Algo que para mim há muito se fragmentou. A família que tanto me fez falta desde que meus pais morreram. A casa cheia de vento, de gente, de alegrias. Um passarinho que canta, uma gargalhada que ecoa, um choro que é acalentado. Uma confusão que só as famílias sabem fazer à hora das refeições.

Eu passei um tempo grande com uma solidão que só não me devorou inteira porque eu nasci para ser feliz. Porque todos os dias tomo esta decisão apesar de todos os ‘emboras’ e ‘senãos’ que me acontecem.

Com licença, que eu voltei. Com licença, que eu não mais estarei atropelada. Com licença, que agora há tempo para mim, para ela, para ele, para nós, para minha família, meus projetos. O semestre ainda se finda, mas, oh, como é bom saber que ele se finda. Com ele irão as provas, os excessos de correções. Os amigos? Estes ficam todos. Não há o que temer.

Julho chegará, mudarei de pele, chegarei aos 33 e agosto explodirá em flores antecipando a primavera mais esperada: o nascimento dela.

Anne Geddes

Um beijo às pessoas de quem eu tanto gosto. E que me fizeram muita falta neste primeiro semestre 2008.

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3 comentários sobre “E a vida nos atropela

  1. Belo balanço. Delicado equilíbrio, a vinda dessa menina já ~tão amada.
    Engraçado: são duas peregrinações em um só sentido;-)

    Mas que haja sempre Vida e nunca haja lugar para medo. Estranhamente descobri, Alena, que só se perde o que *NÃO* se tem.

    E todo o Bem do mundo pra gente repartir.
    Muitos beijos
    Meg
    (já se preparando para a sobrinha)

  2. Linda, bom ter você de volta, para deleite de seus assíduos leitores! Seja bem vinda!
    E a vida ocorreu sim, no seu dia-a-dia e dentro de você, ela não pára. Os “emboras” e “senãos” fazem parte, mas o importante é a nova família que se inicia. Licença concedida (risos), fique à vontade, escreve muito também (enquanto a menininha não chega…), porque depois fraldinhas e chorinhos vão lhe ocupar o tempo inteiro.
    Beijos no coração, das duas.

    Marta

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