Dia de lembrar a mãe

É sempre assim. Ocorre com uma doçura inenarrável todas as vezes em que eu faço um bolo. Se tiver cobertura de marshmallow então… Minha mãe fazia bolos confeitados para aniversários, festas, 15 anos, casamento, eventos em geral. Às vezes, mães de santo lhe encomendavam o bolo para Oxum ou Yemanjá. Ela dizia que eram as melhores freguesas, essas nem choravam desconto nem demoravam a pagar (vai que o orixá se zangasse ou achasse que o bolo lhe era dado de má vontade…). Assim explicavam (risos).

Durante anos, o zumbido da batedeira Arno Planetária ecoava toda quinta-feira na cozinha lá de casa. E era o dia inteiro. Peneirar farinha de trigo, açúcar, quebrar ovos, bater claras, manteiga ou margarina (ela só usava Claybom – dizia que as outras solavam os bolos), fazer a mistura e adicionar fermento lá no fim com espátula… E a máquina fazia o serviço enquanto as formas eram untadas. Lembro-me bem das latas enormes de margarina no canto da cozinha e que ela levava para o interior para o povo que queria pegar água ou para meu avô cozinhar amendoim no quintal.

O cheiro de bolo era o aroma da casa, ou melhor, o cheirinho adocicado da baunilha que subia delicioso invadindo nossos pulmões. Talvez por isso, pela capacidade sinestésica, eu nunca tenha ligado para um pedaço de bolo. O cheiro bastava-me.

Hoje com a minha planetária – que eu também tenho uma – revivi aqueles tempos em que tinha mãe. E lambi os dedos cheios de marshmallow, feliz o dia inteiro embalada pela música memorável do motor da batedeira, ajudante indispensável para os três bolos ficarem prontos.

Depois da tarefa que levava um dia inteiro, ela tomava seu banho e a gente via o cabelo preto lisinho molhado. Sentava-se no sofá e então era hora de, mesmo grande, ser filha: deitava-me no colo dela e inventava coisas para conversar, bem assim, só para sentir o cheiro mais que doce que só as mães sabem ter.