Leituras saramaguianas

Quando eu me descobri grávida, sabia que não teria tempo de curtir a barriga , de ficar serpenteando ao sol apenas a admirar-me e a ler as obras que ainda tenho na fila dos livros que considero amáveis ou indispensáveis. É que, ironicamente, eu havia decidido que este seria o ano de trabalhar muito e enriquecer (muitos risos) fazer pé-de-meia para o breve futuro. Nada conforme o planejado então. Ano de muito trabalho, poucas leituras, muitas correções e (sim!) deleite com o barrigão. Mas este só me era permitido na calada da noite, naquela hora escura em que em casa todos já dormiam e eu ficava inerte na cama, quietinha, só a sentir a ebulição que ocorria dentro de mim. E era nesta hora da madrugada que Alice me mostrava toda a sua atividade com mil chutinhos e soquinhos a me avisar que era uma nova vida e , no entanto, estava dentro de mim.

Como eu ia dizendo, necas de planos então. O segundo plano era de que pelo menos o tempo da licença-maternidade (por que tão curta?) seria gasto com a amamentação e com horas de leitura bem ao estilo da minha adolescência quando eu lia ao menos um livro por dia. Quem dera…

Passados quase quatro meses e nenhuma linha lida. Só folheei revistas de decoração de quartos de bebê. Só. Foi a leitura que mais me deu prazer. Ficar dias olhando as coisas tão bonitinhas que este mundo inventa. Aí deu vontade de aprender a costurar e de viver fazendo artes. (Quem foi mesmo que queimou o sutiã?)

Embora eu não tenha escrito muito aqui no blog nos últimos tempos e não tenha fugido ao monotema da gravidez-parto-puerpério, esta fase inicial como mãe foi bastante profícua.  Muitos assuntos a blogar ao longo do tempo ainda.

Uma das observações que fiz foi o estado de caverna em que a mulher se encontra no puerpério. É um retirar-se do mundo bem ao estilo pedras desmoronando na única entrada da caverna. E a mulher à espera de um resgate sabe-se lá para quando.

Tive vontade de escrever um livro (projeto ainda não abandonado) sobre as peripécias (leia-se rotina) do pós-parto e as agruras da mulher moderna que se vê reduzida a bicho de novo, como se nem racional tivesse qualquer semelhante sua um dia sido. O título da obra – era só o que eu pensava – terioa que ser A CAVERNA.

Mas não sou a única a pensar neste véu que nos esconde do que entendemos como realidade  ( e que , retirado, nos conduz a tantos outros possíveis caminhos) e nem é inédito o título. Também não é plágio. Apropriação, digamos.

Pois bem, ora pois.  Levei idilicamente para a maternidade A Caverna de Saramago , parece que adivinhando inconscientemente o estado em que me recolheria breve, entretanto ainda sem dele ter noção.  Não li nem um capítulo e de agosto aos dias de hoje, nadica mais.  Ao que parece, a tsunami já foi e já consigo fazer algumas coisas minhas agora. Para leitura, depois de tanto jejum, retomo o Saramago que deixei lá atrás.