Boicote à mulher

Existem muitas formas de se destruir uma mulher. Muitas.
Uma delas consiste em dia após dia boicotar sua auto-estima, depreciá-la parte a parte, diminuí-la em tudo que sabe fazer, compará-la e menosprezá-la com frases sarcásticas e tiranas.

Bombardeada, muitas vezes ela se esquece de si mesma, carente que esteja de um amor que nunca virá. Não deste homem. E vai entristecendo, silenciosamente a cada aquiescência, tecendo a teia em que ela mesma se perderá. Noutras vezes, brada alto, grita também, despeja os dejetos de sua alma estropiada, de sua auto-estima vilipendiada em ofensas que buscam responder às grosserias que a agridem no cotidiano comezinho. Assim também ela se perde. Perde-se de si mesma.

“Você não sabe gerenciar uma casa.” “Você é a pior dona-de-casa que eu já vi”. “Sua empregada é a pior  e mais incompetente com que já lidei.” “Você é tão boa mãe que dorme de tarde e deixa seu filho com a babá.” “Seu trabalho é fútil”. “Seu hobby  é imbecil, é perda de tempo”.”Para que vai fazer este curso? Não adianta mesmo…” “Isso não vai gerar dinheiro…” “por que saiu de casa?” “Não estava aqui na hora em que precisei”. “Não conto com você”. “Você nunca faz quando é para mim…” ” Vou dormir feliz porque seu time perdeu”.

Se ela não perceber, envereda-se nesta rede de sutis ou explícitos boicotes que, inevitavelmente, a conduzirão, simplesmente, à infelicidade. É que assim, aquiescendo, ela pode esquecer que os parâmetros são outros, esquecer que quem ama cuida, é parceiro, zela por ela e deseja-lhe o progresso, a ascensão, a vitória sem sair do seu lado e apoiá-la nos momentos difíceis e delicados a que a vida expõe toda mulher.

Este boicote é um crime. Mata em vida. Incapacita. Traumatiza. E os efeitos são muito perversos. Às vezes  incuráveis.

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12 comentários sobre “Boicote à mulher

  1. Entendo bem esse cenário. Ele me é muito familiar. Mas posso dizer que tudo isso é superável, se a mulher quer mesmo ser feliz e tem um suporte emocional bom (terapia, família, amigos, etc ou tudo isso junto), é difícil, mas não é impossível; quando ela realmente acredita na possibilidade de ser feliz. Eu acredito, e sou feliz apenas por acreditar! 🙂

  2. Alena, isso é terrível quando vem do companheiro. Mas quando vem da mãe,do pai, e a menina é novinha e cresce acreditando piamente que isso tudo é verdade, é muito, muito triste, algumas nunca se recuperam.

    Beijos

  3. Lendo o comentário de Eduardo me veio uma dúvida: nos dias atuais, de quem são os papéis na casa?
    Antes, a mulher administrava o lar e o homem trazia o dinheiro. E hoje?
    Depende de cada casa, depende de cada cultura. As regras não são definidas.
    Para mim cada um deve desempenhar o papel de acordo com suas aptidões. Caberá a cada casal criar suas regras sem ferir o outro, sem cobrar por habilidades que o outro não tem, com tolerância e paciência.
    Lendo parece teoria pura, mas aqui na Europa vivencio isto muito bem
    Dentre os inúmeros aprendizados que tive nesse período foi a divisão igualitária dos direitos e deveres (sem juízo de valor!). Para ser sincera, não quero tanto direito nem tanto dever
    Homem e mulher trabalham fora, chegam a casa, cada um cuida de uma parte:
    a) sem ninguém para ajudar: os dois fazem tudo no automático e as habilidades vão surgindo espontaneamente. Quem passa melhor, quem cozinha melhor…
    b) Diarista – normalmente não dorme e não passam o final de semana – quem faz o jantar (a maioria dos homens aqui cozinham) deixa a limpeza para o outro. Se a casa precisa de faxina, um varre a casa e passa pano, enquanto e o outro lava os banheiros…
    c) Com filhos: tirando dar mama, as tarefas são divididas.
    E o melhor, nada de miudezas: Se açúcar não está na mesa, quem reparou, levanta e o pega. A camisa não está bem passada..acho q eles não pensam nisso! Calcinha, cuecas e afins, máquina de lavar roupa (ainda tenho nojo rssss), lavar azulejo de banheiro com escova de dente (“coisa p escravo”) – não tem ralo no banheiro, só dentro do box – pano molhado e ciao!

    Acho que dá para mesclar um pouquinho de cada cultura.
    Quem não vai morrer de alegria de chegar a casa e encontrar um jantarzinho bem gostoso esperando por vc? Homem e a mulher
    Acordar no domingo de preguiça e ter um café maravilhoso ou tomar um café diferente no mercado… homem e mulher

    Equilíbrio é o ideal. E O mais importante para mim é manter o respeito entre os dois e o resto vai levando…

  4. Caro Eduardo,

    leia mais atentamente e observe que NÃO GENERALIZEI. O texto claramente aborda o boicote à mulher, é o seu tema, o assunto sobre o qual escolhi escrever. Sobre a sua proposição da mulher que se faz de vítima, isso dá um outro texto, em outro espaço. Nâo cabia aqui agora.
    Em momento algum disse que TODAS AS MULHERES sofrem de boicote ou que todas são vítimas ou coitadinhas. Tratei do específico boicote à mulher e, mesmo estando no terceiro milênio, meu caro, o machismo ainda impregna a sociedade e vemos e sabemos de casos de destruição da auto-estima feminina no nosso círculo social. Como Nalu bem lembra, o boicote às vezes é feito por pais , mães e eu acrescento até professores. Mas abordei no texto o boicote do companheiro. O tema foi delimitado.
    Se uma mulher, como você diz “quer se sentir, a qualquer custo, depreciada”, só posso pensar em masoquismo. Existe, eu sei. Mas também não é deste caso de ‘síndrome de vítima’ que me propus a falar.
    Da forma como você se expressa, só posso considerar que você é vítima então de uma ‘vítima-tirana-desleixada’ ou que é cego perante as realidades que estão aí, neste mundinho de meu deus.
    Você afirma que “Ser dona de casa é vocação. É aptidão.” Ainda bem , porque exatamente esta talvez seja mais uma questão: ainda há homens que pensam que toda mulher por ser mulher tem que lavar pratos, calcinhas, cuecas, gerenciar a falta de manteiga ou de açúcar e tudo o mais e ainda fazer o mais que uma mulher tem que fazer na modernidade: trabalhar fora, dividir despesas, pagar contas, cuidar dos filhos, fazer supermercado, administrar o lar, o automóvel, o sexo, a beleza, o salão e o amor. Isso sem perder a ternura, a graciosidade , a compostura e o tesão. E talvez a submissão.
    No seu caso, de duas mensalistas, a clt dá preferência à folga dominical, inclusive para as domésticas, mas se a família preferir, pode administrar as folgas também. Escravidão já acabou, os empregados também têm família e reza a cultura popular que o domingo é sagrado. Ao menos eu até hoje dei folga às minhas empregadas no domingo. Talvez um dia eu precise mudar,não sei. Mas, se o fizer, será tudo em comum acordo com as trabalhadoras. É para mim uma questão de respeito ao outro. Entendo seu desabafo, mas o texto também não tratava disso. Deve ser o caso de discutir com sua esposa e com suas mensalistas para chegar a um acordo.
    Eu gosto muito de pensar que um casal deve construir a relação pautado em companheirismo e compreensão. Penso que se um não realiza uma tarefa que se acreditava ser do homem ou da mulher, o outro pode abraçá-la em nome do próprio amor que os uniu. E do bem-estar da família. É aquela questão de resolver problemas e não criar mais um. Acredito em discutir a relação, em ouvir o outro e em dividir tarefas.
    O cara lavador de calcinhas calado, vitimizado pela tirana espalhadora de calcinhas me parece inverossímil, desculpe. Mas talvez exista. Se eu fosse ele, agiria diferente. Não me calaria para lavar. Nem lavaria nestas circunstâncias. Mas lhe confesso que já lavei cueca e calcinha e não mudei em nada por isso. Nem me senti inferior.
    Se sua mulher vai ao shopping à noite e isto o incomoda, converse com ela, particularmente, não vejo nada demais.
    O caso específico que abordei no texto não fala de um homem que torce fervorosamente e fidedignamente para o time adversário de sua esposa. E se este fosse o homem, o fato do time não seria um caso isolado, mas tratei de uma avalanche de frases que, muitas vezes, depreciam, principalmente se aparecem em conjunto, repetidas no dia-a-dia, em um boicote que não cessa.

    Neste século mesmo, meu caro, a discussão em pauta não são os deveres da mulher porque estes a maioria ao menos já está cansada de saber quais são. E que bom que começou a questioná-los. Porque a partir do momento em que ela vai às ruas trabalhar e prover o sustento da família também, o diálogo TEM QUE SER OUTRO ENTRE O CASAL. Volto a reafirmar: acredito em outros parâmetros.
    A luta é por direitos, mas eu ressalto também que não deve levar esta luta jamais ao femismo.
    Está na hora mesmo de acabar com o conto do príncipe, mas não creio que de acabar com as relações nem com o respeito nem com o amor.

  5. Assino embaixo, Alena. Deve existir, em algum lugar, o amor acima dessas baixezas humanas, tão mesquinhas. Não se pode pensar em amor quando se pensa somente em si. O amor tem a mágica de se multiplicar quanto mais é dividido. E amar alguém nos faz conhecer melhor quem somos, desperta em nós a melhor parte que temos.
    Esse Eduardo não tá com nada, me desculpe o mesmo. E coitada da mulher dele, se é que já não é ex…

    Martinha

  6. Sra Marta, “Deve existir” conforme escreveu, é possibilidade. E por esboçar tal forma, creio que não saiba aonde exista. Dizem que todo teórico é um MERDA na prática. Suponho, pelo que escreveu, que deve ser muito feliz e realizada no amor. Mulheres como você, são um convite a aumentarmos a legião de “ex” .

  7. Sr. Eduardo, não tecerei comentários sobre suas palavras em respeito ao espaço pessoal de uma amiga a quem admiro muito.
    Como fã do blog “A Vida em palavras” apenas peço, gentilmente, que se o senhor não tem comentários construtivos a fazer, não os faça, é melhor para todo mundo.

  8. Alena, adorei seu texto!
    Gosto da clareza com que voce expoe as mais simples dificuldades quotidianas. A lista de expressoes que voce elenca no post constituem, realmente, um grande farol de alerta. Algumas soaram de maneira familiar, no meu caso, nao vindas da boca de meu companheiro atual, mas de outros passados e até mesmo vindas de meus pais.
    Devemos TODOS, homens e mulheres estar atentos às palavras que proferimos no dia-a-dia, pois elas ferem, sim, muitas vezes causam danos, como bem diz voce, de maneira irreversivel.
    Beijo.
    LuLu.

  9. Pingback: Algo que me incomoda muito « A vida em palavras

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