Era uma casa muito triste

Dia sim, dia sim,
ela acordava com as grosserias dele.
Não ouvia um bom dia,
não recebia um agrado
nem um abraço,
um beijo sequer.

Era uma casa muito triste.
Ela não podia receber as amigas.
Não prestavam, não eram decentes, não interessavam.
Para ele ela também era puta. Sem ser.

Era uma casa muito sem graça.
Tinha teto, tinha sofá, mas não tinha colo.

Era uma casa muito sem jeito.

Ela perdeu a alegria de viver,
o sorriso espontâneo, o abraço largo.
Era só um ser sem graça um dia após o outro.

Ela nem dormia bem. Nem ele.

Pudera…

Era uma casa muito vazia.
Não havia amor nenhum dia.

Tinha livros, os quais não se comentavam.
Tinha música, as quais não se escutavam.
Tinha filmes que eram vistos a sós.
Tinha vinho, motivo de simplesmente beber.
Não, eles não brindavam nem sorviam.

Tinha comida, a qual era deglutida, engolida – raras vezes saboreada.

Por isso essa casa não tinha nada.

Era uma casa muito sem par.

Mudaram de casa.
Então a casa sorriu por sete dias quando o mar aparecia da janela. E o falcão voava. E os pássaros cantavam ao amanhecer.

E havia vento e ele uivava nas frestas a anunciar se vinha chuva para dormir abraçadinho.

A casa tinha luz.

Foi por isso que eles mudaram de casa. Mas foram junto.

Então o pássaro pouco importou aos poucos.
O falcão foi ignorado.
A chuva pouco importava. Assim como o sol. E o mar. E a luz.