Sobre os boicotes à mulher

Muitos casos de relação homem e mulher em que predomina a ótica machista se pautam na afirmação do sujeito homem a partir da negação do sujeito mulher, na objectualização da mulher.

O dia-a-dia consiste na infiltração de comentários depreciativos que gotejam na mente feminina como simples observações cotidianas ‘inequívocas’, interpretadas à luz de um partidarismno patriarcal e segundo os interesses de dominação do homem, sujeito da relação. Melhor seria dizer: senhor da relação. É um risinho porque ela deixou cair um prato (“você é tão atrapalhada…” “nem para pôr a mesa meu amor serve…”), é um comentário jocoso porque ela estuda (“não sei para quê… eu lhe dou tudo! Não dou, amor? Que mais você pode querer se já tem o meu amor?”), é uma crítica porque dirige parte de seu dinheiro para manter a auto-estima (“a gente em crise e você gasta com salão?”) … os exemplos são inúmeros. Vários.

Aos poucos, o homem mina autoconfiança da mulher, a faz abdicar do que é importante, a deixar de ser o eixo e o centro da própria vida. Este tipo de relação evolui pela negação absoluta do valor mulher e pela solidificação dos valores do homem, o dono, o chefe. E este insiste e não mede esforços, ora sutis, ora grotescos (“se eu terminar com você, arranjo mulher em qualquer esquina!”) para fazer dela o objeto INESSENCIAL da relação.

Quando a mulher chega a se sentir o inessencial, o nulo, a não-mulher, o contra-valor, urge que se repense e que busque o resgate, o retorno. Nem sempre ela conta com apoio – às vezes até sua família reproduz os valores sociais machistas e a condena quando pretende libertar-se.

Enxergar-se como SUJEITO da própria história e não se sujeitar aos ditames generalizados do outro e perguntar-se a si mesma quem é e onde está, onde quer chegar: talvez sejam os primeiros passos. Libertar-se da rede-armadilha pelo homem criada de que ele é o seu porto seguro, a sua via única de salvação, e buscar, sim, urgentemente, outras mulheres, para se solidarizar com elas e descobrir o quanto inequivocadamente os padrões (mesmo desgastados) ainda se repetem em nossa sociedade. É que é necessário que se construa uma teia de mulheres entrelaçadas pela sua condição mulher, pela sua singularidade enquanto sujeito da sua própria história a fim de que o discurso feminino realmente tenha voz e tenha vez, para que ele encha com o seu canto autenticamente assumido a sua própria existência e a da alteridade.

Quando ela se afirma e auto-afirma sujeito único e absoluto, sua voz chega a outras que, ao ouvi-la podem sentir o eco do ser que pulsa em si. E tomar uma atitude.

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3 comentários sobre “Sobre os boicotes à mulher

  1. Clap, clap, clap!!!… Muitos aplausos ao seu belo e oportuno texto, Alena. É mesmo um alerta, e temos todas, sem exceção, que estar sempre alentas às sutilezas do dia-a-dia. A vida agitada muitas vezes deixa passar despercebidas situações que requerem mais atenção de nossa parte.
    Que muitas “acordem”e enxerguem as coisas como realmente são.

    Abraço,

    Martinha

  2. Parabéns pelo texto!
    Com certeza devemos estar atentas ao modo de vivermos, pois muitas das vezes nos deixamos levar por um discurso depreciativo, porém com as vestes de carinho e proteção.

    Atenção e atitude é o que precisamos carregar!

    Beijos!

  3. Parabéns pelo texto!

    Belíssimo, me identifiquei com ele, a minha história de vida se assemelha a este texto muito bem feito e transbordando de emoção.

    Hoje sou sujeito da minha própria história e não me sujeito mais aos ditames …

    Se vc soubesse…, mas um dia quem sabe eu te conto!

    Grande beijo

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