Vergonha

Eu tinha vinte e seis anos quando pisei pela primeira vez o pé na terrinha. Ao sair do ar condicionado do aeroporto, lembro-me como se fosse agora, trajando uma calça cáqui e uma blusa na qual havia uma grande índia pintada, chorei ao respirar o ar português pela primeira vez. Havia algo genético: era o que parecia… Talvez eu sentisse ali a emoção da tradição que, aos poucos, foi se confirmando. Talvez ali, naquele momento, as aulas de História ecoassem aos poucos na minha mente. Talvez as palavras de Gil falando sobre encontro dos povos me impressionassem ainda. Talvez a minha avó paterna estivesse claramente agora para mim visualizada como fruto mais direto – ainda não perdido – daquela cultura que herdara dos pais.

E eu cheguei a Lisboa. A sensação primeira é que aquele momento seria o início de muitos encontros. Encontro comigo, com o meu passado, com os meus antepassados. Encontro com traços indeléveis da minha cultura que eu não saberia dizer até então o quanto eram herança de Portugal.

A ida ao hotel, os olhos atentos como os de uma criança a descobrir o mundo e a maravilha da cidade tão cosmopolita e tão histórica. O Rossio e os calçadões da baixa, o marco dos descobrimentos, a torre de Belém, os pastéis de nata, a ginjinha (com elas!), as igrejas, o castelo de São Jorge em cujas paredes voa uma donzela diáfana (juro que eu a vi a vagar!)… a nostalgia de flautistas por toda a baixa, a beleza do Tejo, a modernidade do cais, os magníficos restaurantes onde me viciei em comer muito e bem e muito e bem e muito… o parque das nações com todas aquelas bandeiras a tremular e a emoção de nos descobrir brasileiros embaixo da verde-amarelinha, o teleférico, as Tágides reconstruídas à beira do Tejo, o oceanário (!!!)… a carne de javali, os vinhos, as bodegas, o elevador de Santa Justa, o arroz de sarrabulho, a recepção acalorada ao nos saberem brasileiros pelo sotaque, a emoção de ver (eu, professorinha de literatura) o túmulo de Camões, a beleza da arte manuelina, os almoços intermináveis regados a vinho na casa do amigo Zé, as rabanadas com vinho do Porto, os amigos que fui acumulando, as prendas carinhosas que recebi, o sotaque gostoso de ouvir dos portugueses, os pães que me ensinaram o que era pão, as azeitonas as quais comi sem parar, as cerejas frescas na beira da estrada, o patê de sardinha mais maravilhoso do planeta(vício certo!), a Marisqueira com suas sentollas e a certeza de que Portugal é um país maravilhoso.

Sintra tão pertinho a nos erguer no alto da serra o magnífico palácio mouro, suas ruas tão poéticas, o litoral e seus fortes, a beleza do Oceano Atlântico ( e pensar que é o mesmo que nos banha aqui)…

Estrada rumo a Óbidos, Évora, Marvão, Serra da Estrela (que trutas!), Nazaré, Braga, Guimarães, Porto, o rio Douro, os rabelos, Coimbra (e viva a Universidade!), Valença, Viana do Castelo, o rio Minho, Covilhã, Leiria, Santarém, Portalegre, Sines, Faro, Sagres… Todas todas com post merecido a desenvolver…

Fui a Portugal a passeio em 2001, 2002, 2003, 2004, 2005 … e devo voltar lá a partir do ano que vem. Um encontro maravilhoso comigo mesma, um amor à pátria que também é minha, um reconhecimento de raízes, um encontro emocionado.

Infelizmente, para minha surpresa e vergonha, me deparei com o vídeo do programa Saia Justa no qual a Maitê Proença dá um show de estupidez, desrespeito e ignorância.  O Brasil deve, no mínimo, desculpas diplomáticas a Portugal.

Publique-se o vídeo para que se tome conhecimento e um protesto mesmo nasça. Trarei aqui algumas memórias da minha relação de amor com Portugal. É o mínimo que posso fazer.

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12 comentários sobre “Vergonha

  1. Alena, eu acabei de chegar de la, e tive tanto prazer em la estar. Fiquei tao feliz em me sentir em casa sem verdadeiramente estar. Discordei das pessoas que diziam que eu ia me sentir em Salvador, achei diferente, mas parecido. E as pessoas, as pessoas… tinha uma propagando turistica pelas ruas que dizia: “as pessoas sao o coracao de lisboa”. E eu concordei com aquela frase todos os dias das minhas ferias.
    Eu tive vontade de me esconder, morrendo de vergonha alheia, quando vi o video da Maite.

    • As pessoas são o coração de Portugal. E do Brasil também. Lá em Portugal, por onde passei, fui muitíssimo bem recebida e sempre que descobriam pelo meu sotaque que eu era brasileira, as homenagens eram inevitáveis, lembranças carinhosas do Brasil sempre.
      Vi Portugal parar para assistir à posse de Lula, vi Portugal vibrar em jogos do Brasil torcendo pelo nosso time.
      Lastimável a ignorância de gente ‘famosa’.

  2. Obrigado. Obrigado por tão calorosas palavras para com o meu país e as minhas gentes. Obrigado por demonstrar, mais uma vez que brasileiro não é burro.

    Burros são todos aqueles que falam de Portugal como a Maitê, e todos aqueles que insultam os brasileiros por causa da Maitê.

    Cumprimentos

  3. Como cidadã oficial dos dois países me solidarizo a você, Alena, ao seu texto tão sincero e belo, aos portugueses e aos brasileiros que se sentem envergonhados pelo infeliz momento dessa gravação feita por uma atriz brasileira tão conhecida.

    Merece mesmo desculpas oficiais esse incidente deplorável.

  4. Alena
    Tenho imensa vontade de conhecer Portugal, país de muitas histórias, de muitas conquistas, e belo.
    Maetê Proença foi de fato infeliz nas declarações e comportamento. Uma pessoa considerada equilibrada, madura e sensata, destratar uma nação desta forma. Lamentável.
    Bjs

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