Dia dos Pais – homenagem póstuma

Meu avô Antônio foi o homem mais íntegro que eu conheci na vida. Exemplo de família, de bonança. Viveu para seus filhos e netos, viveu para sua família. Deixou-nos de legado principal a exata noção do quão importante é estarmos todos juntos, sermos éticos, termos amizade e, acima de tudo, valorizarmos os nossos laços afetivos.

Teve uma esposa, oito filhos, quatro genros, duas noras, 15 netos e hoje, se fosse vivo, teria 9 bisnetos (e mais um dois a caminho).  Soube agradar, respeitar, considerar. Foi um homem gigante, um forte como o sertanejo de Euclides da Cunha. E também um homem extremamente simples.

Lembro-me sempre, ao falar dele, do seu olhar de amor, da forma como nos enxergava, da verdadeira adoração que nutria por nós, suas netas. Lembro-me de quando eu ansiosa e alegre o esperava na escada de casa, chegado do interior, e de como ele trazia suas sacolas cheias de  coisas da roça, como o meu beiju que sempre vinha. E lembro-me dos banhos de mar que ele gostava de tomar aqui em Salvador.  E dos picolés que a gente chupava na praia: de coco e também de amendoim.

Lembro-me com ternura de como ele cuidava da gente, capaz de ficar sozinho com todos os netos e deles dar conta: brincar, distrair, consertar isto e aquilo, dar banho, pentear cabelo e arrumar todos sentadinhos na sala para ver televisão e comer um prato de biscoito de coco com uma colher de manteiga no final da tarde.

Quando jantávamos na casa dele, sempre havia a carne do sol com rodelas de tomate e um pouquinho de farofa. E a gente comia de tudo, mas ficava ali, esperando ele repartir entre todos o seu quinhão de carne.  Era como se fosse o prêmio. Também ele abria a lata de goiabada e o pacote de creme de leite e ia fatiando o doce de acordo com a quantidade de pessoas. Eu era privilegiada, ele sabia que eu adorava creme de leite e a minha taça sempre tinha mais que a de todo mundo. Mas eu sabia esperar para ser a última e ninguém ver a quantidade a mais. Era um segredo nosso.

Lembro-me dele escondendo a minha bicicleta porque eu morava em Salvador, armando a rede de vôlei que ele mesmo fez, na chácara, para jogarmos quando eu levava a minha bola. Lembro-me dele fazendo um balanço para a gente brincar e de guardar as goiabas para “as meninas de Salvador”. Lembro-me da cumplicidade dele com minha mãe, lembro-me de como ela o chamava de painho e como era doce este seu tom.

Porque a gente gostava, sempre tinha suco em sua casa; nunca me esqueço dos liquidificadores de maracujás fresquinhos, suco que ele mesmo fazia, às vezes tão doce. E pão com queijo, manteiga e presunto quentinho, que “estas meninas de Salvador” adoram.

Nas festas de São João, meus olhos brilhavam com a fogueira que ele se orgulhava de fazer. E a gente pequena, eu e Maurício, éramos seus ajudantes na roça: para lá e para cá, como carrapatos, atrás dele o tempo todo. Juntando lenha, enfeitando com bandeirolas, lavando amendoim e descascando milho. Tudo uma novidade muito grande, especialmente para quem vivia “na capital”.

Uma vez ele comprou uma máquina de moer manual para fazer caldo de cana. Bastava minha mãe pisar na chácara e lá íamos nós, girar aquela manivela infinitas vezes até tomar a garapa deliciosa com gelo e canudinhos de plástico nos seus inesquecíveis copos de alumínio.

Arrancar coco, encher o carro de mão e depois vê-lo homem abrí-los com facão nos fazia destemidos de tudo: ele poderia nos proteger contra qualquer coisa. A gente bebia até a barriga ficar enorme, um dois ou três, o que aguentasse. Os canudos eram cortados dos talos das folhas de mamoeiros e davam um gosto diferente à água, um sabor de passado bem vivido. Ficávamos jiboiando no sol com a barriga estourando de tanto coco. E rindo sem parar, como bem cabia a netos felizes.

Depois, ao entardecer, era a hora de ” uma volta de carro de mão”. E a gente sentava no carrinho enquanto ele passeava conosco. Às vezes, cabiam até três netos, os menores.

Ele nunca conseguiu nos proteger direito foi da chuva: gritava no terreiro para entrarmos e a gente pulava sem parar só para se molhar toda mesmo. Arrodeávamso e escolhíamos o caminho mais longo. Tomávamos banhos de poça d’água e corríamos de relâmpagos até ele gritar com sua voz de trovão “já para dentro, seus moleques!” Foi ele também que me ensinou a olhar as árvores, os animais e o céu para descobrir se choveria.

Ele tinha uma risada gostosa, um riso diferente, só dele. Uma gargalhada sonora. Lembro-me dele rindo ao ver novelas – noveleiro nato! O Bem Amado passou quando eu era criança e nunca me esqueço nem do sorriso dele nem do de minha mãe ao ver Odorico Paraguaçu e as três cajazeiras (apelido que virou nosso, três netas de Salvador) . Chico Anísio, Jô Soares e Os Trapalhões. Ele adorava! Seu riso enchia a sala inteira e eu nem sei se a gente assistia a ele ou ao programa.

Catar mangaba embaixo do pé para fazer sorvete. Juntar castanhas para assar. Vê-lo lendo o jornal todos os dias, balançando-se na sua cadeira de fios. Ou juntar os netos para chupar uma lata de umbu até os dentes doerem. Nossos pais não precisaram pedir para que ele brincasse de vovô com seus filhos. Deixava a gente brincar no escuro de cabra-cega, a gente fazer arrelia com os gatos e, de vez em quando, pular nas camas da Barroquinha.

Na ilha, dava a cada neto um chaveiro e a gente ia colecionando as chaves de abrir quitute para, como ele, imitando-o, pensarmos que tínhamos o poder de abrir tantas portas, fechaduras e cadeados.

Tudo que a gente gostava achava na casa  dele: bicicleta, doces, balas, alegria e aconchego. Um avô bem grande, diante de nosso tamanho criança, e gigante, se considerarmos as boas lembranças. Ele, às vezes com barba por fazer, arranhava em beijos os nossos rostinhos, dava uns tapas fortes nas coxas grossas e enchia de cheiros os nossos cabelinhos molhados depois do banho. É amor, é avô. É uma saudade que eu tenho hoje. Uma saudade muito gostosa.

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Um comentário sobre “Dia dos Pais – homenagem póstuma

  1. HOJE DIA DOS PAIS PASSEI MENSAGNES VIA CELULAR PARA OS PAIS VIVOS LOGO PELA MANHÃ. MAS PARA MEU PAI COMO O CHAMAVA FUI AO VIVO E CONVERSEI COM ELE PARA PROTEGER E DAR JUIZO AOS NOVOS PAPAIS QUE AI ESTÃO CHEGANDO PRINCIPALMENTE SEUS NETOS, WELFE, MAURICIO, THIAGO E MAURICIO. A SE ELE ESTIVESSE AQUI ESTARIA VIBRANDO NÃO SO COM O CHURRASCO MAS COM A NOSSA UNIÃO QUE ESTAMOS NOS ESFORÇANDO MUITO PARA MANTER E SEMPRE NESTAS E OUTRAS DATAS ESTARMOS UNIDOS. É BOM MANTER ESTA MEMORIA VIVA NETOS E BISNETOS PRECISAM SABER MESMO DE TUDO DE BOM E DO AMOR QUE NOSSO PAI NOS PASSOU. ALENA TAMBEM REZEI MUITO POR SEU PAI ASLAN QUE TAMBEM NÃO DEIXOU NUNCA DE AMAR E VIVER SO PARA VCS TODOS OS DIAS EM QUE VIVEU NESTA TERRA DE NOSSO BOM DEUS.
    QUE DEUS CONTINUE NOS ILUMINANDO SEMPRE E VC SEMPRE QUE PUDER RELATANDO COM ESTE SEU BELO CONHECIMENTO E SABEDORIA QUE SEUS PAIS LHE DERAM.
    DEUS ABENÇOES VCS MINHAS FILHAS, GENROS E NETOS QUE HERDEI E VÃO VIVER COMIGO ATE O DIA QUE DEUS ME DER FORÇA E SAUDE.
    CARLOS GRAÇA E LORENA AMOR PARA SEMPRE.

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