Vaca de divinas tetas

Descobrir-se mãe não é só doçuras, antes sensações extremas e contraditórias em turbilhão na alma. E no corpo. Primeiro que a gravidez enlouquece o organismo e se, por um lado, nos enche de boas sensações, também nos permite experimentar as controvérsias: sim, é você se sentir linda e mágica com uma barriga enorme enquanto o mundo te enxerga como quem carrega um nariz de bola gordo e inchado.

Então vêm as emoções do parto e o medo do que virá super casado com a ansiedade por ver e pegar, no colo, o seu bebê pela primeira vez. Nem sempre os partos saem às mil maravilhas ou como você quer e nem sempre temos de perto todas as alegrias que pensávamos.

Mais controvérsias, mais confusões. Eu tive depressão pós-parto (só que na época não foi diagnosticado) e me descobri arrasada, sem vontade de ver qualquer pessoa que fosse. Deu-me logo um desejo de recolher-me no meu próprio útero com o bebê e lá ficar até que tudo ficasse bem. Tudo? Como assim? E lá algum dia nesta vida tudo fica bem?

É que a maternidade na tv e nos livros é um exercício eufêmico. Mães de cabelos escovados e maquiagem de salão carregam nas suas vestes brancas e no seu sorriso plácido , no colo, um bebê de seis meses com rostinho de veneração e mãozinha gordinha. E magras.  Ao lado dela, em pé, sempre a senhora sua mãe, com o mesmo sorriso terno.

O meu quadro desmoronou logo aí mesmo, nesta famosa cena: Alice era um bebê RN e não de seis meses(obviamente), não sabia direito chupar o peito, meu bico era invertido, precisei de enfermeiras, lágrimas, curso, leituras, bicos de silicone, bomba manual, lágrimas, ordenha, bomba elétrica, irmã espremendo os peitos, febre, cheiro de leite azedo o dia inteiro, lágrimas, falta de tempo para banhos, escovar os dentes e pentear os cabelos, bebê que chorava sem parar, mais lágrimas, exceto quando estava no peito. Tradução: Alice ficava o dia todo no peito. E ela, ainda assim, perdeu mais peso do que deveria. E, obviamente, eu fui enlouquecendo, pirando, ficando estressada, uma bomba, zumbi sem dormir, miséria de animal irracional sugado pela cria. Ao mesmo tempo, enlouquecida e desvalida, triste pelo sinal lacrimoso de assumir a própria incompetência para algo que – ao que parecia – a humanidade dava conta muito bem.

Então, desesperada, em confissão no consultório da (maravilhosa!) obstetra, contei-lhe minhas angústias e ela, humana e mulher, me disse: passei exatamente pelas mesmas coisas e, ao que parece, todas as demais. Mas não é comum falar-se. Simplesmente ninguém nos avisa, ninguém nos prepara. Dra. Sílvia me disse: – Eu dava curso de amamentação, chefiava uma maternidade e um grupo de aleitamento e, simplesmente, pensei em rasgar em tirinhas bem finas todos os meus livros de medicina e amamentação.

Aliviei-me. E fui me consolando com o velho jargão: “isso passa”. Dia após dia, era um mantra que eu internalizava para não ficar maluca. Quanto mais Alice gritava, mais eu pensava em silêncio que iria sair pelo mundo andando para sempre, tipo Forrest Gump, sem destino e sem documento. E sem filha.

Fiz minha irmã me prometer mil vezes que ela cuidaria de Alice se algo me acontecesse. Mas ela não sabia do meu plano secreto idealizado todos os dias. Sair sem destino pelo mundo, andando, andando, andando…

Em todo momento de desespero, via-me na sinaleira do Iguatemi, o sinal vermelho, e eu em pé, pensando qual caminho tomar nesta andada do para sempre.

Sorte que o tempo passou. E eu consegui sobreviver à loucura psicológica (inicial) que é amamentar. Porque passa o difícil e quando a gente já está acostumada, vicia! É maravilhoso!

E, quando eu já estava em condições de tirar aquelas fotos das campanhas, descobri que gostava de amamentar, os seios já estavam calejados e ela já sabia direitinho o que fazer!

Amamentei até Alice fazer 3 anos e 2 meses. Amamentei Aslan, meu sobrinho, e também Apolo, o pequenino. E me orgulho disso. Mas não foi fácil. E passou. Ufa!

Alice(minha filha) e Aslan (meu sobrinho) mamando

Para amamentar, precisei de apoio dentro de casa (no caso minha irmã); de lucidez para não arrancar os peitos nos momentos de febre, inchaço e sangue; de insanidade para continuar e de abnegação. Sim, a gente abre mão de si pelo filho. Ou filha. E vontade e perseverança são os segredos únicos.

“Respeito muito minhas lágrimas/Mas ainda mais minha risada/ Inscrevo, assim, minhas palavras/ Na voz de uma mulher sagrada/
Vaca profana, põe teus cornos/ Pra fora e acima da manada (…)/
Ê, ê, ê, ê, ê, /Dona das divinas tetas, / Derrama o leite bom na minha cara (…) / Vaca de divinas tetas/ La leche buena toda en mi garganta (…) / Vaca das divinas tetas/ Teu bom só para o oco, minha falta /E o resto inunde as almas dos caretas / Dona das divinas tetas /Quero teu leite todo em minha alma / Nada de leite mau para os caretas / Mas eu também sei ser careta/ De perto, ninguém é normal /Às vezes, segue em linha reta / A vida, que é “meu bem, meu mal” (…) / Deusa de assombrosas tetas / Gotas de leite bom na minha cara / Chuva do mesmo bom sobre os caretas…”

Mas vale. A pena.