Abrir as portas

Gosto de visitar casas de amigos. Gosto de sentir como cada um dá sentido ao seu espaço. As casas contam histórias. Cada badulaque, um quadro, um vasinho com flores, uma mesinha de centro com plantinha ou castiçais, móveis modernos ou demodê, panelas e a arrumação da cozinha… um paninho bordado aqui, outro ali. Olhar atentamente o velho piano e os santinhos do corredor , a moderna bancada do banheiro reformado e as cadeiras de vime, tudo isso são pedaços humanos, são marcas pessoais, são fruto de uma idealização, de uma vontade de trazer a beleza, o lirismo, a doçura para onde se vive.

Abrir a casa aos amigos é compartilhar um espaço cheio de histórias. É o nosso enredo particular, é ver a fusão caótica do que talvez devesse ter passado, mas é mantido, como um mimozinho de artesanato infantil feito pelos filhos crianças e que aparenta não pertencer àquele canto, mas que , na verdade, são os retalhos de nós e fazem-nos, donos da casa, sorrir ou nos enternecer.

Compartilhar nosso mundo particular com pinturas descascadas ou paredes mofadas é lembrar que nem tudo sai de uma prancheta de arquiteto ou que nem tudo é possível consertar quando queremos ou mesmo se podemos. É entender as cicatrizes no piso arranhado ou o cheiro de passado no quartinho da bagunça. São conjecturas e projeções humanas que habitam a nossa casa, enfeitam nossas estantes e se escondem nas gavetas da alma.

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