Ponto a ponto

Um mês e dezesseis dias com sutura.
Tudo errado, eu sei. Não recomendo.
Procurei médica amiga, paciente, delicada… não, não deu. Muita dor e recomendação de passar pomada e tomar anestésico na hora. Faltou coragem, resolvi ficar Frankenstein para sempre…
Era mesmo um plano.
Aí hoje (há dias venho pensando nisso), saradinho, tudo fechadinho, resolvi cortar os pontos com tesoura estéril e tentar puxar… até… amanhã … com a ajuda da pomada e dos anestésicos. Respirei fundo (umas 25 vezes), deitei na cama porque tenho gastura… minha pressão abaixa… abaixou mesmo, fiquei lívida… abaixei a cabeça e, quando pude respirar calma de novo, segurei a pontinha da sutura só para sentir como é que ela estava. Depois de sentir o drama, passaria a medicação. Entretanto, magicamente, como se fosse preso em indulto de Natal, o fiozinho transparente deslizou macio pra fora do corpo. Um por um, menos um, menos um, menos um e menos um. Não eram cinco? Ou um ficou para dentro ou saiu sem que eu visse num destes dias em que machuquei a mão já machucada. Ufa!

The end

* * *
Agradecimentos sinceros e aliviados desta mulher extremamente sensível quando se trata de procedimentos médicos (outros diriam : frouxa) às amigas que acompanharam o drama: Lorena Formosinho, Kau Fernandes, Mariana Landinn e Andrea Specht Dortas.
rs

A morte

A morte rasga,
dilacera, 
expõe as entranhas, 
tortura
essa civilização despreparada para a brevidade. 

A morte incomoda.
O outro.

A dor tem cara de pasmo.
Aspecto de estupefacção.
Cara de espanto.
A dor se finge de ‘estou bem, obrigada’.

O outro: não quer ouvi-la,
não quer vê-la em lágrimas,
debater-se,
jogar-se no chão,
gritar inconsolavelmente
até a exaustão…
adormecer o corpo de quem a sofre – a dor.
Caminhar mil voltas sem saber nada nem para onde.
Este onde que nem existe mais.

O outro precisa entender que a vida continua.
Não o sofredor, mas o outro, 
aquele que passa ao largo dela – a dor. 

Este outro precisa ver-te de óculos escuros,
sorriso amarelo, mas ainda sorriso.

Porque a tua dor não te incomoda mais do que a ele.
Ele, mísero, é humano.
É pequeno.
E se sabe igual a ti: falível. 
Passível de todo e igual sofrimento.
E é isso que o incomoda. 
Essa humanidade toda que o atordoa.
E o torna incapaz.
De compreender.
De agir com exatidão.

Ele te quer bem. Quer-te feliz.
Indefectível.
Mas tu não podes mais fazer-te do que não és.
Só dor, só rasgos, só queimadura aberta no peito.
Mágoas da vida ferida.
Tu não podes pôr o teu vestido de flores 
e sair leve pela manhã.
As flores estão despedaçadas.
E o vestido sem cor.
E o céu. O mar. A noite.

Tu és um naco de peito. 
Pedaços de lágrimas.
Resto de gente.

Porque a morte bateu em tua porta.
E te feriu impiedosamente.

Louca: tu te sentes tendo que continuar a viver.
Mas ela, a vida, é imperativa.
É uma ordem para os que não desistem.
E ela insiste, severina, a te abrir os olhos e a te fazer enxergar 
o que tu ainda demorarás séculos a ver.

Este é o teu momento. A tua dor. O teu desespero. O teu rasgo sem regaço.
Sente-o. Ainda que sozinha por vezes.
O outro não sabe.
Não. Não tem como saber.

A dor te abraça. A morte perpassa. 

Até que tu renasças.

Alena Cairo , 23/10/2013

 

Salas para uso

O conceito de beleza em uma casa é mesmo tão relativo! Salas indefectíveis nunca me atraíram. Tá, são bonitas de olhar. Mas me vejo aqui , esparramada no sofá, tv ligada, mesinha roxa de apoio (roubada da varanda) com caderno aberto, lápis, hidrocor, canetas, papéis espalhados, note no braço do sofá… e acho tudo isso incompatível com o projeto de um mini gabinete cheio de prateleiras. Vou arrumar lá e trazer para cá. Nada funcional. Então é melhor ver o que consigo fazer de prateleiras e nichos pro aqui mesmo, com meus vasinhos coloridos de mil materiais escolares.
É… porque beleza sem uso é beleza morta. E antes de casas perfeitas para gringo ver, prefiro casas de verdade para eu viver.