Paralisação dos professores

Existem mães que se sentem chateadas com a greve dos professores, existem mães que não têm com quem deixar seus filhos e que têm uma vida apertadinha de compromissos e dançam um balé danado para dar conta de tudo. E eu entendo como mãe o quanto a falta da escola atrapalha a nossa rotina. Mas como professora, eu sinto um orgulho danado de ver as professoras da escola da minha filha conseguirem fazer a paralisação amanhã junto com a categoria, lutando não contra a escola, nem contra seus alunos, muito menos contra a gente, pai e mãe. É uma luta maior, uma luta contra uma condição social de desrespeito, exploração e indignidade que envolve a classe profissional como um todo.
Eu sinto orgulho destas professoras que cantam, dançam, ensinam, fazem projetos e acalentam o choro dos nossos filhos, que nos fazem felizes com o legado que eles trazem de novidades para a nossa casa todos os dias. Sinto orgulho pela formação delas, por saber o quanto são empenhadas, estudiosas e boas em seu trabalho. Sinto-me segura em deixar a minha filha na escola todos os dias porque tenho visto o quanto acertei na escolha.
Amanhã, eu vou dizer à minha filha porque a pró dela não vai para a aula: ela estará em uma sala bem grandona, junto com muitas prós de muitas escolas, todos debatendo e discutindo um assunto que diz respeito à dignidade dos trabalhadores, à integridade moral e à melhora econômica da vida delas. E assim a gente, pai e mãe, pode ter a certeza de que as professoras, mesmo ausentes, continuam ensinando: uma lição tão linda que eles poderão levar para a vida inteira. A luta por si mesmos, por seus sonhos e pelo seu trabalho. É assim também que se faz um mundo melhor.

Dia Internacional da Mulher

Sei não, mas o apanhado de baboseiras que tenho visto na internet sobre o Dia Internacional da Mulher me deixa cansada. A luta é perpétua? Parece que sim.

Piadas de mau gosto, burrices coletivas e desmerecimento da luta bem como banalização do movimento me deixam meio angustiada e reflexiva ao pensar na estupidez de seres humanos que parecem demonstrar não ter se livrado dos ecos patriarcais medievos.

A violência contra a mulher existe. Está clara nos índices da imprensa e também nos reunidos por blogs como o Machismo mata. Está aqui, na minha família, e na sua também. Na minha vida e na sua.

Dia internacional da mulher não é o dia de ficar comercializando bombons ou distribuindo rosas apenas – embora perfuminhos e presentinhos também possam existir.  É o dia de parar para relembrar, descobrir, conhecer, conscientizar-se da luta das mulheres que desde a Idade Média, especialmente, se viram acuadas, desprezadas e vilipendiadas por uma cultura que sobremaneira validou o  olhar masculino e instituiu o patriarcado, desprezando culturas matriarcais e esmagando qualquer importância feminina, ou melhor, restringindo-a a uma “culpa” absurda do “pecado original” , limitando-a a recipiente reprodutório perpetuador da espécie e assim desconstituindo-a de sua identidade.

continua

Metáfora ou não

Descobri há pouco que meu relógio parou.

Se o relógio parou, parou meu tempo de coisas ruins.

Parei um tempo para cuidar de mim.

Parei no tempo com uma taça de vinho e tagliarini com gambas feito por mim em papo dez com amiga de infância.

Parei um tempo para curtir o descanso, desacelerar, sentir o tempo passar bom.

Parei para boiar na piscina.

Parei deitada de costas no deck molhado só sentindo a fluidez de ser humano.

Parei para ver minha filha sorrir.

Parei para ver as crianças brincando.

Parei para andar de bicicleta.

Parei e senti o vento no rosto.

Parei e tomei banho de rio, fiz ecoturismo e andei em turma.

Parei e vi que algumas coisas não se encaixam mais, não prestam mais, venceram a validade.

Tudo para o lixo.

Parei para tomar providências legais que há muito deveriam.

Parei o tempo e cuidei de mim.

Parei meu tempo e sorri.

Parei e nem percebi.

E foi muito bom.

Pressa? Nenhuma.

Há tempo. Sempre.

Ocupações

Passar uma tarde agradabilíssima em companhia da mais alta estirpe de amizade… tudo de bom!

O fato é que hoje mergulhei no universo Branca de Neve e festas infantis, auxiliando a amiga a pensar lacinhos e docinhos e decorações e princesas para a festinha em comemoração do aniversário de sua filhota enquanto as crianças brincavam sem parar.

O resultado é que me vou lembrando de quem sou eu e passei a tarde entre recordações da minha avó e da minha mãe, doceiras de marca maior.  E voltou com força total a minha vontade de fazer festas, de receber amigos, de diversão sem limites de alegria.

E o desejo de pensar cada detalhe, de arrematar cada fita de cetim ou pimenta decorativa se a festa é de adultos.

Abro uma cervejinha e junto uns tiragostos para navegar em um mar de fantasia e alegria que me proporciona um deleite sem igual.

E vamos ao artesanato!

Plenitude

Faltava pouco. Mas faltava.

Pensei setecentas vezes em abandonar este blog, deixá-lo vagando no universo líquido da rede para sempre. Talvez como se sua autora tivesse morrido.  E, por ter mesmo consciência desta morte, da morte da eu Alena de antes e não me saber ainda que eu Alena agora eu era… então…

Estes silêncios gigantes que vivenciei me propiciaram hiatos de dias e posts de vazios que ecoaram para quem abria repetidas vezes estas páginas em busca de mim, de minhas histórias; e estes mesmos silêncios me frustravam por ver este blog abandonado também como espelho do abandono de mim e do não reconhecimento de um eu que não mais se sabia. Identidade fractária.

Neste meio tempo de minha história, tempo de lacuna para o  A vida em palavras, os desencaixes se deram por processos de perdas que, somados aos processos anteriores já conhecidos por vocês(morte de meu pai, de minha mãe… avós e também pelo fim de relacionamentos) resultaram numa incompreensão global do todo de mim mesma que só me convidavam ao não falar. Justo eu, a mulher das Letras, a profissional das palavras, a amante da palavra escrita, a pessoa que fala pelos cotovelos e que conversa sem parar. Fui toda silêncios entrecortados por notícias ou breves espaços de histórias não tão interessantes assim.

Eu não sabia se exatamente apenas não convinha dizer. Já não sabia se queria dizer. Tampouco se o que dizia era realmente relevante ( fato com o qual nunca me preocupara antes). Ou mesmo se estava vivendo algo que valesse.

* * *

O tempo passa. Contratempo. Contra tempo.

Tempo arrastado para as dores e insuficiente para digerir todas as coisas.  Assim me dei conta de que foram dois anos de um vazio solidão incríveis para mim.

Dediquei-me à autoanálise retroalimentada por cada descoberta de farrapos de mim. De peças desconexas, restos de uma cidade invisível e um tempo impossível agora.

SENSO EXATO DE NÃO PERTENCIMENTO A COISA ALGUMA. Não pertencer a si mesma. Não pertencer ao outro. Não ter vínculos afetivos, estes estraçalhados. Não pertencer a um emprego. Não pertencer a um lugar – que cidade é esta que eu não reconheço, que eu não amo, mas que no entanto me revela aterradoramente ter sido meu berço? Não pertencer a um grupo de iguais. Não pertencer a uma turma. Vê-las todas perdidas. Objetivos distintos, pessoas agora então estranhas. Não pertencer a um estado de espírito tão meu por tanto tempo, tão meu, tão meu. Não me reconhecer no espelho. Não me reconhecer como mãe. Não me saber como mulher. Não ter irmãs – eco vazio de família. Não ter família. Nenhuma. Nem a que eu tinha, nem a que eu sonhei, nem a que eu desejei. Só. Solidão. Não ter casa para voltar, a minha casa, as minhas coisas. Regressar a um espaço vazio de significados. Sem laços. Mausoléu de um tempo que foi bom, mas que se perdeu na memória e apenas nela resta: casa herdada de família.

* * *

Cada projeto em que me meti focava exatamente o micro, a pequena essência… e a busca consistiu em idas e vindas que objetivavam essencialmente o sabor de redescobrir-me, diferente, outra, melhor e também pior, mas Alena.

* * *

Confesso que acho no fundo bacana. Não sei se é isso que se chama maturidade. Mas desconfio. Esse tal de andar devagar porque não faz agora sentido algum ter pressa. Para quê? Para onde? Por quê?

Assim o tempo passou e eu realmente fui me achando. Pedaços essenciais de mim , mas também outras faces desveladas. E confesso , de novo, que estou gostando muito de tudo isso.

Estou de novo gostando muito de mim.