Livros e autores

Para conhecer um autor, eu sou um tanto avessa às biografias, ressalvando-se o que se mantém de factual e curioso nestas historietas da vida de cada um. É que as biografias são as pessoas vistas, sentidas e interpretadas por outras pessoas… e eu muitas vezes sou incrédula perante algumas percepções de biográfos.
Para conhecer um autor, com licença, meu senhor, eu me ajeito num sofá, no meio do meu edredom ou em um canto qualquer – que isso é o de menos – e mergulho, isso sim, em sua palavras, sorvendo sua literatura e ouvindo os seus sussurros que me falam à alma.

Chico Xavier , o filme

Do filme, me ficou a impressão exata de que faltaram mais fontes, de que o recorte era meio o programa de tv e pronto, pincelado com as memórias de infância e tal. Senti meio superficial, mas, ao mesmo tempo, creio que nãopoderia ser mais profundo. Bastou para o objetivo de levar mais pessoas a conhecerem este homem de luz. Sim, não sou espírita nem católica, cética muitas vezes, mas o percebo mesmo como uma pessoa abençoada.

Sabe as pessoas que transmitem paz? Boas vibrações? Saí do cinema com esta sensação.

* * *

O que mais me deixou comovida, o apelo que me tocou foi realmente a ligação dele com a mãe. Sabe, lembrei da dorzinha eternamente latente ainda que invisível e por  vezes quase por nós mesmos imperceptível, da dorzinha que quem perdeu a mãe sente.

E me deu uma vontaaade de receber uma carta da minha mãe… ai, ai.

Deixa para lá, né?

Internet e soberania

 

Falar de Internet e Soberania é lembrar Octavio Ianni e O príncipe eletrônico.

Mudou o paradigma social: o mundo moderno face às evoluções científicas exige a aproximação entre  ciências e humanidades e a linguagem se posiciona como conexão dialógica. Capra defende a teoria da rede, da conexão entre todas as  coisas e Morin hoje ressalta pedagogicamente a importância da religação dos saberes. Não há como se pensar em sociedade contemporãnea, em evolução científica, desprezando parâmetros humanos.

Para Ianni, o novo século propõe uma ruptura histórica acompanhada de uma ruptura epistemológica que consiste no reflexo das revoluções culturais na revolução científica, cabendo às ciências sociais, à filosofia e às artes o papel de reinventar novos horizontes, respondendo às inquietações do terceiro milênio.

A globalização, por outro lado, uniformizou, totalizou e desterritorializou o mundo pelo uso dos meios de comunicação. Uma nova linguagem se instaura. As fronteiras foram quebradas e há um novo panorama com o qual o homem, estupefacto, ainda não sabe lidar. As gerações foram um tanto quanto atropeladas pela contemporaneidade e seus avanços.

O príncipe eletrônico, soberano do mundo moderno, representação do ‘quarto poder’ é uma onipresença virtual, representada pela quebra de fronteiras, multiplicação dos espaços e aceleração dos tempos em todas as direções (Einsten: espaço e tempo são tão relativos mesmo!) em todas as atividades humanas possíveis, do lazer às regulamentações legais da sociedade civil. O ciberespaço, às vezes penso, representa a outra dimensão com  que o homem sonhou na ficção do passado.

A mídia é  hoje o príncipe eletrônico, talvez o grande Leviatã que assombrou Hobbes, não mais o Estado soberano como criação do homem, estado este que perdeu a autonomia estatal face às demandas do mundo globalizado e à subordinação dos países às grandes potências e seus mecanismos de controle da economia mundial e massificação da cultura, criando uma hegemonia de padrões.

O risco desta mídia mundializada é a parcialidade de opinião proporcionadora de um pensamento unificado conforme os interesses das elites que dominam a humanidade. As formas de matar a diversidade são várias: padrões de beleza universais, padrões que falam do melhor do mundo, padrões associados ao modus vivendi do primeiro mundo etc., disseminados pela tv, internet e demais mídias.

Predomina uma nova narrativa na construção da história da humanidade que, inclusive, usa recursos virtuais. A nova linguagem instaura novas possibilidades de construção da história.

O que não sabemos é o quanto ou quando seremos devorados pelo grande leviatã da modernidade. Sucumbiremos ou o ser humano não escapará, mais uma vez, de adaptar-se?

 

 

Livros felizes

A Lulu polemizou e desabafou a queixa de seus alunos: eles estão cansados de livros tristes. E têm razão. Respondi ao seu post lá no blog dela e resolvi copiar aqui.

O polêmico e, às vezes (leia-se quase sempre), disparatado Diogo Mainardi escreveu um dos melhores textos que li sobre literatura na escola: Os clássicos no chinelo. Ele acusa as escolas de entregar aos adolescentes cheios de espinhas os grandes livros antes do tempo e conseguir fazer com que eles odeiem literatura. E tem razão. Eu sempre comento isso com meus alunos. E, por isso e por causa da idade deles, eu escolho livros felizes para ler em sala. E falo dos porquês de ler um clássico.

A coisa é meio assim: seduzo pela delícia, depois mostro os dramas do mundo. Emociono, faço chorar ou arrepiar. Porque ler é um ato HUMANO. Demasiadamente humano. Como o Lord falou, alguns clássicos são para ser lidos na fase adulta, os pais dele tinham razão quando o ‘proibíram’ de ler Graciliano Ramos (o avô) antes do tempo .
Os adolescentes geralmente são felizes e eu comecei a ensinar cedo (com 17 anos, época em que eu era muito feliz) e percebi esta angústia deles há 15 anos, porque era a minha também. Eu, simplesmente, odiava a Clarice e todos os seus problemas de mulher de 40. Achava-a mal amada. Torcia o nariz. Na época.

As mensagens de esperança eram muito mais interessantes naquela idade, face ao mundo já caótico que eu começava a perceber, como Pollyana, O menino do dedo verde ou mesmo o amor triste, mas lindo de morrer do Portuga e de Zezé em Meu pé de laranja-lima. Sabe que eu não fui do tempo do Vicente Celestino, não o ouvira jamais, não conhecia sua voz, sua obra, mas , muitos anos depois, estava no interior da Bahia e ouvi uma radiola cantando numa casa e, imediatamente, eu soube que era o Vicente? E amei aquela música toda porque eu já a amava há muito pelas letras de Vasconcelos e pelos ouvidos de Zezé.
Um grande (grande em todos os sentidos) livro feliz é O sítio do pica-pau amarelo.
Sempre fui a Emília – até hoje – que faz-de-conta que quando as coisas não são exatamente como eu quero. Eu posso!

Escolho contos felizes. De amor, de amizade, de esperança, de beleza, de aventura, de mistério. Polissêmicos. Trato do superficial e depois entro nas entrelinhas com eles. Geralmente, eles se entusiasmam. E as provas sempre têm que ser com textos lindos de morrer, tipo Menino de ilha de Vinícius.

Outra coisa: literatura é fruição, é prazer e , na adolescência, não se sente prazer com a leitura que objetiva responder a uma prova. Me poupem, professores! Literatura não é assunto de prova, é formação, é fruição, é arte. E perguntar o que Michelangêlo quis dizer com a Pietá é matar a contemplação e as lágrimas que podem surgir ao admirá-la. Pelos livros ou ao vivo em Roma. Ler Machado de Assis para responder a questões de abecêdêé é o fim.

Acabei de derreter todinha ontem  ao ler O conto da ilha desconhecida de Saramago. E é um conto muito lindo. E meus alunos todos, cerca de uns 200, vão ler também. Porque eu o amei.

Adoro Felicidade Clandestina na sala de aula. Do ‘bulling’ ou da crueldade ao amante…
A biblioteca verde de Drummond é um sonho de poema e de amor pela leitura.
A ilha perdida é uma aventura deliciosa para esta idade. Dois amigos e um chato é uma coisa de maravilha de fazer amar a leitura que Stanislaw Ponte Preta inventou. Trabalho Ziraldo em qualquer série, até na faculdade, e Ziraldo é um maluquinho feliz.

Os adolescentes daqui amaram Crônica de uma namorada de Zélia Gattai. Isso ninguém me tira é uma livrinho legal para começar a gostar de ler. Dandara de Janaína Amado é de um erotismo picante para a 8a . Dias Gomes é sensacional em O pagador de Promessas. Adoro os autos de Gil Vicente na sala também. Cinco minutos é levinho… de Alencar. Calvino é fenomenal. O cavaleiro inexistente : muitas palmas aqui!!! Um livro maluco, divertido, inverossímil e completamente humano: os três personagens (Gurdulu, Agilulfo e Rambaldo) são as projeções de um eu tripartido. Impossível porque imperfeito ao extremo. Impossível porque perfeito em demasia. Existente porque humano com as projeções de perfeições e a realidade de imperfeições que nos torna o que somos. Um pouco Agilulfo, um pouco Gurdulu e, certamente, Rambaldo. Ou Bradamante.

Quando eu era adolescente, li a coleção da ática inteirinha e Monteiro Lobato também.

O nosso amor pelos livros acaba contagiando os alunos, mas realmente, crianças e adolescentes não merecem ainda ser moídos pelas mazelas humanas que algumas obras tratam com propriedade indiscutível para nós, adultos. Deixa que o tempo deles da desilusão chegará.  Eles ainda querem ser felizes para sempre. Ainda bem. E, se lerem os livros certos, poderão, quando a vida os massacrar, fechar os olhinhos e apertá-los bastante, fazendo de conta que… ainda vale a pena viver.

Tanto desastre

Este blog andou paralisado por demais. É que na hora em que eu estava mais eufórica, com mais vontade de escrever e postar, foi tanto desastre – em especial o da TAM – que me calou por uns tempos até que as coisas assentassem. Sim, porque não agüento mais as notícias e o serviço de DESinformação da talevisão. Tudo ontem foi w, hoje é x, amanhã será z, depois de amanhã será y. É uma enxurrada de opiniões e exposição dos parentes da vítima que mais confundem que informam. Emoção e não razão.

Amanhã, o A vida em palavras voltará ao normal. Andei lendo os livros que ganhei de presente de aniversário e percebendo o quanto de e-mails desinteressantes recebemos.

Estou devendo um ou dois posts ao Lord. Uma carta a MEG. Outra a Anna. Outra a Soll. Pago as dívidas. Esperem. Um pouquinho só.

ACM

” O tempo leva por diante todas as coisas”

Machiavelli 

 

Antônio Carlos Magalhães morreu. Morte anunciada e esperada. Não me assombrou nem me desesperou nem assustou. A lei da vida é imperativa. A morte chega, até para ele, persona não acostumada a perder.

As palavras perda e ACM não rimam, não combinam, mal dialogam. Hoje a Bahia veste o seu luto e, embora haja um misto de alegria e alívio para os que não o admiravam nem suportavam ou toleravam, é inegável que esta foi, sim, uma morte significativa. O atual governador da Bahia, eleito neste final de mandato e de vida de ACM num prenúncio de que o ‘império’ e a hegemonia dele, ACM, chegavam ao fim, assim como sua vida, disse que haverá uma página na História da Bahia para tratar de ACM. Wagner foi modesto e econômico: uma página é pouco. Nos meus trinta e um anos de vida, pude politicamente perceber os efeitos do carlismo no meu estado e posso assegurar que ACM não é uma página apenas da história da Bahia, mas um livro inteiro, talvez mais de um volume.

” Os homens devem ser mimados ou exterminados, pois se se vingam de ofensas leves, das graves já não podem fazê-lo. Assim, a injúria que se faz deve ser tal, que não se tema a vingança.”

Machiavelli 

Seus mandos e desmandos afetaram a nossa sociedade, a nossa cultura, a nossa economia, a nossa comunicação, a vida na Bahia. “Cabeça branca” era amado ou temido ou odiado, não havia “tanto faz” ao se falar dele. Legou avanços significativos ao nosso estado, especialmente à capital, Salvador, a menina de seus olhos. O interior nem sempre foi lembrado e há muitas cidades esquecidas na nossa geografia que não evoluíram em quase todos os aspectos – de saneamento à saúde ou educação. Mas todo e qualquer dado depreciativo sobre seu governo foi maquiado na imprensa que a ele servia.

Foi mestre em propaganda política, em despertar o amor do povo, este mesmo povo de quem ele tanto precisava para se eleger. Elegeu quem quis aqui na Bahia durante quase todo o período da história. Lançava nomes desconhecidos até então e, em tempo recorde, olha o fulano ou sicrano, ilustre desconhecido, governando a cidade ou o estado.

 

“Quod nihil illi deerat ad regnandum praeter regnum (Que não lhe faltava para ser rei senão um reino)”

Machiavelli 

 

A Bahia, indubitavelmente, foi o seu reino. Por vezes inúmeras, a extensão de seu poder alcançou o cenário nacional. Sua influência foi notória. E Brasília sabe disso. Ouvir sua retórica era admirável e as réplicas que fazia, coisa de mestre. Soube perder todas as batalhas e embates políticos e aqui, nesta ’sua’ Bahia, não pareceu ao povo que tivesse perdido luta alguma, porque nunca o viram senão de cabeça erguida. A imagem inabalável de um rei, como ensinou Machiavelli.

 

“Nada faz estimar tanto um príncipe como os grandes empreendimentos e o dar de si raros exemplos”.

Machiavelli 

 

ACM soube disso. Viabilizou obras faraônicas na Bahia: quando ministro, as telecomunicações por aqui eram avançadíssimas, a telefonia de ponta da época estava em nosso estado; idealizou o novo Centro Administrativo de Salvador, reformou o aeroporto, inaugurou centenas de obras e ‘reinaugurou’ tantas outras, dando às construções de outros governos a nova roupagem que interessava. 

 ACM não passou em branco pela vida. Na Itália, achei num trem que ia de Veneza para Roma uma revista esquecida. Ao folheá-la, deparei-me com uma entrevista que apresentava o singular ‘dono da Bahia’ aos povos do outro hemisfério.

Toinho Malvadeza para os que, conscientes do seu poder ’sem limites’ e de suas manobras políticas, não o aplaudiam. Cabeça branca como metonímia e referência (ou reverência?). ACM, sigla clichê nos diálogos da Bahia e do Brasil. “Rouba, mas faz”, slogan que, surpreendentemente, não era uma depreciação, mas um incentivo a que se continuasse votando nele ou nos seus corregilionários.

 

“É necessário a um príncipe que o povo lhe vote amizade; do contrário, fracassará nas adversidades”

Machiavelli 

Mais ou menos quando eu tinha 18 anos, resolvi ingressar na vida política e resolvi conhecer ACM da forma mais simples: como povo. Fui a um comício realizado numa favela de Brotas. Embora consciente de grande parte de sua trajetória, não pude deixar de chorar ao sentir a emoção da massa alucinada que parecia estar diante de um ídolo. É porque emoção vem em ondas e nos atinge desavisados que estamos. Neste dia, ganhei uma rosa dele. Uma mulher enlouquecida a tomou de minha  mão. Ele viu. Beijou outra rosa, piscou o olho e pediu a um dos seguranças que descesse do palanque e ma entregasse em mãos. Assim eu conheci a sua força no meio do povo. Confesso que fiquei impressionada com a figura forte deste homem que distribuía rosas, guardando os espinhos para o momento oportuno.

 

“Assim, é necessário a um príncipe, para poder se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade.”O desejo de conquistar é coisa verdadeiramente natural e ordinária e os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados.”

Machiavelli

Tirano, déspota, salvador da pátria, herói (o povo se divide). Não o aplaudo, mas tiro o chapéu por saber o quanto ele foi FORTE, o quanto a sua força política afetou o estado, a política. Li Machiavelli, curiosa, quando descobri que era seu livro preferido. A leitura me impulsionou na vida. Aprendi estratégia e plano de vitória epude ver o quanto o prefeito-governador-senador-ministro-todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães sabia aplicar as premissas de O Príncipe.

ACM ou Antônio Carlos Magalhães foi uma personalidade ímpar. Isso não há como negar. E nem que a Bahia viverá, a partir de sua morte,  um novo tempo. Melhor ou pior só o futuro dirá.

“O desejo de conquistar é coisa verdadeiramente natural e ordinária e os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados.”

Machiavelli

Serão?

______________________________________________________________

Fonte da imagem: doisdedosdeprosa.wordpress.com

Programa fútil

Ahahaha… teve gente que aventou as hipóteses mais culturais possíveis… Até e-mail eu recebi. Ontem, simplesmente, fui passar uma horinha do meu dia na inauguração do shopping Salvador. Honestamente? Nem fedeu nem cheirou. Corredores de lojas similares a todas as demais dos outros centros comerciais com produtos já conhecidíssimos dos consumidores. Zero novidade.

Multidão de alucinados ensandecidos por descontos de 10 reais em lojas de eletrodomésticos. As pessoas se empurravam e se acotovelavam. Os estabelecimentos fecharam as portas e colocaram seguranças para evitar os arrastões (como o que houve na propagadíssima inauguração do primeiro supermercado da rede G. Barbosa em Salvador).

Um som ensurdecedor na praça central amplificava o que a orquestra tocava e poluia infelizmente o ambiente. As lojas âncoras seguiram o mesmo pressuposto de que música animada estimula o consumo. Só lhes esqueceram de dizer que o volume também afasta os consumidores.

Gastei R$1,50 em uma água com gás e saí de lá menos de uma hora depois para um japonês delícia na av. Paulo VI. Eu, hein?! Quero mais é ser feliz.

_____________________

P.S.: Não parece época de Natal ? Adoro quando saio da minha rotina de correções e constato quanta gente não tem o que fazer a bater perna durante as tardes.