Resposta aberta ao Lord

Caro Ricardo,

Engraçado para mim como a internet realmente fez laços importantes para a minha vida nos últimos anos. Senti falta dos amigos, de lê-los, pessoas inteiras, de dar-me à leitura, eu , livro humano também. É você, é a Meg, é a Cam, é a Soll, é o Zeca, é a Anna V., é a Helê e é a Monix, a Fal, a Meg M., a Denise… tanta gente boa! Percalços em meu caminho, desajustes afetivos. Normal. Acontece para todo mundo.

A lacuna que ficou em mim, blogpessoa censurada, temerosa de julgamentos reais, cruéis e incisivos de pessoas que me eram muito caras, me fez preferir tantas vezes o enigmático silêncio. Estúpido, sim, mas, mais uma vez me admiro: o silêncio meu sempre falou mais que todas as minhas palavras.

Ah, as minhas palavras. Que falta elas me fazem sempre! Que vontade de poema, que desejo de risadas, causos engraçados… que anseio de sonhos líricos em crônicas românticas, que ensejo de saudades sufocadas em palavras mudas que apenas davam voltas em minha cabeça e em meu coração. Desenhavam-se textos e morriam na boca ou na ponta dos dedos. Tempo de silêncio imperativo.

Tempo de não dar notícias. não despertar dragões, não incomodar os vaga-lumes. E o sol em meu peito morrendo chuva na alma.

É, meu caro Lord, meu caríssimo Lord, esta vida que se repete severina também virtualmente deságua por fim um dia em nascer de novo, em rir de novo, em ver o sol não mais deus nem mais diabo na minha terra de realidades e ilusões. É um estar fêniz, um ser fênix, um recomeçar com sabor de vida. De vida humana.

É uma hora de meu corpo saber-se de novo, de meus sonhos gritarem em mim, desdobrando-se em sorrisos, estes sorrisos que são tão meus.Tão a minha cara, tão a minha pessoa. Sou eu mulher romântica, devorando Drummond, Vinícius e Saramago a noite inteira, no meio da noite, em elétrica vontade de encher o peito de bons sentimentos. De constatações poéticas sobre os fins que permeiam a nossa história.

É hora de sentir pulsar o desejo, este que exala pelos poros após me invadir inteirinha e ultrapassa minhas vestes, que me faz caminhar segura, passo a passo, que me faz enxergar o outro, um outro que está porvir.

É hora, Lord, de sentir o efeito do arrumar uma casa interna. De entender claramente estes fractais de que nos fazemos pedaços a cada dia. E de concluir que mais outros e outros mais fragmentos ainda estão por vir; eu: ser em construção. Ser vivo. Estar viva.

Um beijo. Um abraço apertado. Destes que só os amigos sabem dar. E obrigada, amigo, pela sua fidelidade.

Alena

                                                                                                                                                                                                                                                                                                              .

Auto-ajuda em negativo

Dia 03 de maio, Marcelo Coelho publicou "Auto-ajuda em negativo" na Folha. Senti vontade na hora e rabisquei-lhe estas palavras:

Marcelo,   

penso nesta "auto-ajuda" que, realmente, tem nos impelido à "ideologia" massacrante "da felicidade". A gente tem tanto que "dar certo" que se nega ao ser humano o sentimento básico do sofrer. A intolerância generalizada às lágrimas alheias talvez decorra da vida "celebridade" imposta como parâmetro no mundo contemporâneo: sucesso, risos, dinheiro, taças, flashes, mansões, poder e cabelos femininos com chapinha povoam o imaginário da população.   

É preciso " dar certo" e este imperativo tem conduzido à rejeição de todo e qualquer humano que se mostre feio, choroso, sofrido, abatido, com problemas etc. Após o fim de uma longa relação amorosa, a qual me fez feliz em alguns momentos, ouvi estupefacta os comentários superficiais daqueles que iam sabendo da separação: "ah, que pena! Não deu certo, não é?" A superficialidade se revela assim, comenta-se pouco, fala-se o básico e livra-se do outro com o clichê-consolo: "é assim mesmo", "é natural", "hoje em dia…"    

Fiquei, então, a pensar nisso e descobri que não, deu certo sim. Dizia o poeta que durou o tempo necessário e "deu certo" , portanto, enquanto durou. Recorrendo a outro lugar comum: "o que passou passou". Foi bom, foi ruim,; talvez como tudo o mais nesta vida. Das dores aos momentos de encanto, do choro aos risos de pura felicidade, da beleza e do companheirismo à solidão a dois e ao egoísmo.   

Então, aprendi que a minha vida me pertence, "todos os dias são meus" (F. Pessoa). Em face dos acontecimentos em minha vida pessoal e diante da insensibilidade umbilical dos tempos modernos, tenho optado pela companhia "de mim mesma": se quero chorar, faço-o copiosamente. se quero esquecer, permito-me.    

Seu texto de 3 de maio me faz refletir sobre o "excedente de sentido" e penso também no que acumulamos por "sobra de significado". Sem necessariamente cultuar a memória dos que se foram desta vida ou da nossa história, vejo-me a guardar as roupas deixadas e minha casa pelo último namorado, já ex. Não as dei às vítimas da chuva, nem as joguei fora. Estavam passadas a ferro no armário e limpas, como se a, inconscientemente, esperar que ele voltasse. Já é hora de os Correios e Telégrafos funcionarem ou de fazer a caridade talvez. É hora de levá-las ao seu destino porque não há mais excedente de significado, nem resquício algum.  Passou como tudo mais.   

Há horas sim, em que ninguém pode nos ajudar, entretanto tenho visto estupefacta como perdermos o direito a um colo básico de amigo, no qual vamos apenas deitar e deixar que as nossas dores se traduzam em lágrimas.  Isso me faz lembrar, em oposição a este  individualismo patente hoje, uma história. É a história de uma tribo cujas mulheres, quando uma de suas companheiras perde o filho, num ritual de cura e dor, reúnem-se  àquela que sofre e  gritam e choram todas juntas, como a extirpar a dor individual, humana, coletiva e social. Choram por si, pela companheira e por toda e qualquer pessoa que passe por situação semelhante.   

A vida é cíclica (outro clichê!), há para todos sucessos e fracassos. É preciso no mundo contemporâneo, saber apagar as luzes do palco em que representamos socialmente o papel sorridente de eternos vencedores e poder, no escuro de si mesmo, permitir-se a lágrima, o desalento, a tristeza. Faz bem.

Alena

Uma (im)possível resposta

Literatura recontada, parafraseada, transformada, aproveitada, adaptada, reinventada: possibilidades contemporâneas ou falta de criatividade ?Não penso em falta de criatividade de hipótese alguma… Creio que , muito pelo contrário, é muita criatividade e sinal de muita audácia reverter ou subverter ou transgredir ou escapulir ou entortar ou rever as coisas, as histórias, as pessoas, o mundo!!!

Que bom que nós, humanos, aprendemos, ainda que lentamente , que podemos contar as histórias de outros jeitos… de outras formas…sob outras óticas… A nossa reação face a esta hipótese nos descortina a nossa própria visão da existência: se podemos contar histórias tão contadas por séculos de outra maneira, incluindo personagens, mudando cenários, fazendo novo clímax e desfazendo os parâmetros antigos… revelando as entrelinhas, descobrindo outros pontos de vista… QUE BOM !!!!!!!!! ESTAMOS SALVOS, SERES HUMANOS!!!!!

Divago um pouco agora e viajo na hipótese: vai ver que o grafocentrismo do mundo moderno pode ter sido exatamente um plano maquiavélico de soberanos da antiguidade para aprisionar a alma e a mente humana (risos). Sim, se se quis por um código, um conjunto de signos, representar a fala, os sentimentos e os pensamentos, pode-se ter ambicionado encarcerar a liberdade de expressão artística, as múltiplas linguagens (mais risos)… Vai ver que quem inventou a escrita queria acabar com a capacidade de se aumentarem os pontos ao se contarem os contos lá no tempo dos hieróglifos do Antigo Egito.
Hum… já sei ! Tive uma “eureca” ! E então…

Era uma vez um tal de faraó muito rico e bonito (já repararam como se associa a idéia de riqueza à de beleza?). Possuía muito ouro, prata e pedras preciosas. Seu reino era enorme e tinha um exército de ESCRAVOS. Enciumado por ver que seus antepassados viraram lenda , portanto eram cada vez mais mitológicos, grandiosos, heróicos, pediu então ajuda a um astronauta… ops, aos deuses (eta ! eram ou não os deuses astronautas?) .
Aí… (adoro as crianças contando histórias… sempre vem o aí… por isso não o abandono) Aí, o faraó ficou resetando seu cérebro humano pra ver se a solução surgia. Naquele tempo, ele não pôde ler A Arte da Guerra porque o livro ainda não tinha sido escrito (nem escrita havia…nem imprensa de Gutenberg nem nada). Desesperado, sem saber como conter aquela fama toda dos antigos faraós, seus antepassados, invocou todo o céu e não é que recebeu ajuda dos seres extraterrestres ? (EXTRATERRESTRE ??!!!!!! Ora, por que o espanto? Se os deuses moram lá no céu não são então extra = fora + terrestres?)
Aí foi iluminado. Descobriu que água mole ou estaca afiada, se bater na pedra, fura. E juntou um séqüito de homens. Mandou que eles registrassem, na enorme pirâmide que construiu para “viver após a morte”, todas as suas riquezas e seus feitos e suas glórias. Mas pediu a eles que estavam inventando a escrita, que aumentassem também um pouco os pontos… Ele queria ser o maioral de todas as dinastias. E baixou então um decreto: a partir daquela hora, só o que estava escrito valia. A palavra falada perdeu então a sua importância– vai ver que é por isso que hoje a gente não pode entrar num supermercado, comprar comida e DIZER que vai pagar no próximo mês… Não, não… temos que assinar um papirinho moderno pré-datado ou então ESCREVER nosso nome num boletinho on line para 30 dias…
A partir de então, a vaidade do faraó determinava o que era verdade : nada mais que fosse dito era crível. E o povo, obediente, parou de contar as histórias de seus antepassados ou passou a contá-las como se fossem fantasias lendárias. Tem mais ainda, caro leitor, como só havia poucos homens capazes de imprimir na pedra os tais símbolos gráficos, ele resolveu que o CONHECIMENTO da escrita seria para poucos a fim de evitar que a dispersão da técnica fizesse com que os mais teimosos contassem outras histórias melhores ou mais homéricas para os seus súditos. Só o documento assegurava a verdade e assim se esfacelou o conhecimento passado de geração em geração. Tudo virou dúvida quando antes eram verdades ou, no mínimo, possibilidades.
Mas como os deuses não são de todo ruins e não servem a apenas um senhor, ficaram com pena da humanidade, especialmente daqueles velhinhos que reuniam as crianças em torno de si para lhes falar do passado. E então sopraram no ouvido deles a novidade. Sábios que eram, os anciãos decidiram aprender a escrever e começaram a secretamente transmitir o conhecimento para as crianças. E elas foram percebendo que, quando inventassem a escola, poderiam ter a sua liberdade de expressão de novo garantida.
Mas o malvado do faraó só pensava no próprio umbigo, ostentava ouro, prata e buscava aparentar o que não era: um rei ou líder de verdade. Que… estava longe disto! Na busca insana da sua eternidade de fama, Vossa Celebridade convocou os assessores e lhes exigiu uma solução. Pensaram, pensaram, pensaram.
E tomaram uma decisão : a partir daquele momento, os cargos todos só poderiam realmente ser ocupados por quem o poder determinasse. Assim, os líderes estariam todos comprometidos com a troca de favores e seriam vigias para o faraó. Como gozavam os puxa-sacos de uma série de benefícios, muitos se batiam para ter este cargo (lá vem a tal de ambição de novo, estragando e bagunçando o coreto…). E foi assim que o faraó foi dizendo que esta profissão era mais importante que aquela, que tal função não era importante… Além de indicar os chefes da educação e dos demais setores, o poder ficou com a função de determinar os conteúdos estudados, as versões permitidas da História, as normas gramaticalmente válidas, o currículo a ser estudado… tudo, tudo o mais!
Resultado deste dois mais dois todo: os mais velhos, homens e mulheres que professavam as múltiplas verdades de vivências e saberes das gerações antigas, e também as lições de senso comum foram desvalorizados numa das maiores manobras de inversão de valores da história. Deste modo, o pronunciamento foi um momento solene, para o qual só foram convidados os mais VIP´s . A nova lei ditava: “me agrade, eu sou o poder, eu tenho a força e você pode se dar bem se estiver do meu lado”. Muitos se curvaram, então, para o faraó passar.
Assim tem sido a humanidade desde aquele tempo … O tirano da ficção, metáfora de tantos soberanos ou das elites privilegiadas, quase quase triunfou. Bolou um plano e guardou bem escondido o segredo da pedra filosofal com a qual se fez poderoso. Pegou uma arca, socou lá dentro o valor da oralidade, a imaginação, a felicidade do reino, a alegria, a liberdade, o amor, a auto-estima, tudo, tudo de bom que havia. E se declarou o maior astro pop de todos os tempos.
Só que ele não contava com o aparecimento de Dora… Danada como era, driblou os seguranças e, em busca de um autógrafo, xeretou o camarim da mega pirâmide cinco estrelas. A garota era lá uma jovem… quase criança ainda e não conhecia bem os rigores da lei. Percebeu que as máscaras que o soberano usava eram todas iguais: revestidas de jóias, ouro e prata por fora, aparentemente lindas, entretanto, ocas. E ele era humaníssimo como qualquer um. Sob a luz difusa das tochas, parecia um semideus, mas qual nada! Nada de deus grego nem romano nem egípcio. Era falível também. Errava. E o seu grande descuido foi não trancar bem a arca sagrada dos segredos.
Dora, atenta a tudo, descobriu-a e futucou-a. Descobriu, então, surpresa: a cegueira imposta aos homens de seu tempo. Dispersos, ofuscados pelas luzes do palco armado, surdos pelos decibéis pops, mudos pela censura imposta, não percebiam que há muito lhes fora tirado o que havia de mais precioso: a curiosidade. Doutrinavam cegamente a sociedade inteira e educavam as crianças ensinando-lhes o autoritarismo para os vencedores e a droga da obediência para a massa. As respostas aos seus porquês eram assim: porque sim, porque não, porque eu quero… nada de explicação! Só a imposição da força.
Astutamente, a menina então vestiu a fantasia, alimentou-se da esperança e abraçou a curiosidade. Escreveu tudinho no primeiro papiro que achou e, com o pó de pirlimpimpim que já era conhecido das antigas arcas, soproueste segredo em um objeto : um livro!
Até hoje, tempo tão tão tão distante daquela era … vira e mexe, quando alguém o abre, folheia e lê, pode de novo resgatar a humanidade outrora perdida, a esperança, a capacidade de sonhar. E ser feliz

(aos atentos gramatiqueiros de plantão, observem acima: não foi um erro de digitação, a história não tem ponto final!)

(Risos pelo devaneio)

Então, colegas, quando cremos que na literatura cabem todas as possibilidades que a História Oficial nos negou, temos a exata consciência de que a ditadura, a opressão, a ordem estabelecida até então, a tirania, o poder cego… todos os desvarios das classes dominantes podem, sim, ser abalados.

Uma pausa para pensar Balzac: “A literatura é a história privada das nações”.

Quem conta o conto sempre igual é porque perdeu o que de humano tinha: a autonomia, o raciocínio, a criatividade, a audácia, a possibilidade. Lembro O Velho e o Mar e penso que o ser humano pode ser destruído, mas derrotado não. Lembro as histórias fabulosas que nos doutrinaram com a idéia de que a lei é a do mais forte, que o esperto é quem vence, que quem espera sempre alcança. Então aplaudo os que tiveram audácia de criar e recriar o mundo, pela imaginação e na realidade, provando que é possível
sim, que haja histórias diferentes, diversas… Paráfrases, fusões, re-invenções… ( Cecília não poetizou : “A vida só é possível reinventada!” ? )
Se assim não pensamos, torcemos sempre para a força da Mônica derrotar a inteligência do Cebolinha, para a esperteza do Jerry vencer, humilhar e maltratar o Tom, para o Zé Carioca sempre fugir de suas responsabilidades e reforçar o estereótipo de malandro brasileiro com que o Walt Disney nos “presenteou”.

Ainda bem que se pode contar A NOSSA HISTÓRIA de uma outra forma, ainda bem que o mundo MUDA , que NADA DO QUE FOI SERÁ DE NOVO DO JEITO QUE JÁ FOI UM DIA,que nem toda FEITICEIRA É CORCUNDA, senão , nós , brasileiros, seríamos todos só BUNDA (valeu, Lulu, Rita e Zélia!).

Ao invés de repetirmos em sala de aula apenas o que aprendemos, com tantas e tantas limitações e pontos de vista impregnados do discurso oficial, da lei da elite , da visão de quem vence, da ótica de quem tem o poder, como , infelizmente, a História do Brasil que nos é contada em sala do fundamental ao ensino médio, façamos com nossos alunos e conosco um resgate daquilo que nos roubaram pela tirania e pelo abuso de autoridade, de poder: a nossa capacidade de perguntar POR QUÊ ?
Deste modo, em vez de decorar todas as datas dos fatos, entenderemos que estudar história é mais que mera cronologia: é análise de causas e conseqüências, é possibilidade de transformação pela conscientização de que somos os sujeitos do nosso tempo, da História e da nossa vida.
Também deste modo poderemos dizer aos nossos alunos que a Arte é essencial porque é o fruto da sensibilidade, da alma, dos sentimentos humanos… algo tão desvalorizado em mundo de materialismo e capital, de consumo e de bens. Então, poderemos seduzir os jovens e lhes transmitir a necessidade de resgate do interesse por si mesmo (e não pela celebridade da nova novela); pelo outro próximo e também distante ( e a alteridade não será somente uma palavra “difícil”, mas compreendida como parte e complemento do que somos); pelo meio em que vive (social, político, cultural) e pelo ecossistema, entendendo-se como parte dele e não apenas “um turista dentro da placenta do planeta azulzinho” (não é, Arnaldo, Marisa e Carlinhos?).

Então, leitores da palavra, leitores da vida, de si, do outro, do mundo, entenderemos, nós , professores e alunos, que, na literatura, por ser o espaço do possível, cabe até o impossível!

“A vida só é possível
Reinventada !”
Cecília Meireles

Alena Cairo 13/03/2006

Penso, logo me angustio!

Penso… logo… me angustio !

E não é senão a condição de livre pensar que me castiga e aprisiona tantas vezes? Desperta ou em sonhos, açoita-me a consciência.

Liberdade, liberdade…
A vida tão fugaz, os instantes tão efêmeros e esta utopia que me persegue e atormenta…
Livre. Livre para quê? Diáfana meta: encarcero-me ensimesmada. De que preciso estar alforriada? Escrava de mim mesma, de padrões e preconceitos, de todos os não-podes maternais, confundo-me, atormento-me, condeno-me. Grilhões do pecado: a alma torturada pela sandice de existir.
Se se pode existir, por que não ser simples e difusa em sensações?
O ineditismo das circunstâncias desafiaram as concepções mais íntimas. Covardemente fujo. Do que houve, do espelho e do encontro. Fujo dos olhos que me castigam a cada esquina ainda que revelada não esteja a transgressão tão íntima.
Saltar os muros sociais, cavalgar de encontro à consciência e ser toda fruição… Loucura? Estupidez? Inconseqüência? Leviandade? Vazio? Os açoites ecoam na minha imatura experiência de existir. 
Que palavra dizer ? Que palavra dizer-lhe?
Só meus olhos fundos podem silenciar neste momento d’alma difusa em desculpas evasivas…
Não sei. Não sei.

Por ocasião de maio de 2005

Alena Cairo