Preocupações

Ainda me preocupo com o tipo de estudante que temos em sala de aula. Sei que são vítimas em grande parte do modelo tradicional de educação. Mas pensar é possível…

Uma professora nossa pediu que lêssemos O Mercador de Veneza de Shakespeare.  Pediu que víssemos o filme homônimo também. E que lêssemos A luta pelo direito de Rudolph Von Ihering.

Bom, a questão é que os alunos agora andam reclamando que ela não ministra aula em sala, que não têm assunto para estudar. Toda aula é dialógica, mas, como não tem esquema e conteúdo programático predefinido, com slides intermináveis e transparências repetitivas, grande parcela do alunado não consegue perceber que seja aula. Discussão, leitura e manifestação das idéias, interdisciplinaridade, analogias, registros pessoais, resumos e tal…  nada disso é aula.

Ah, a professora também não mandou ler para ontem sete livros-bíblia, mas solicitou apenas duas referências que considera mínimas e importantes, indispensáveis.

E a “galera” a pensar que não há aula incisivamente.

Ai, ai.

Mais sobre professores

Quando eu me formei, descobri estarrecida que a professora que eu mais admirara na faculdade considerava adotar na sétima série Meu pé de laranja lima demodê. Nossa! E sensibilidade é demodê?

Não vou dizer que depois de adulta é o meu livro preferido, mas quando eu era menina, Zezé me ensinou a sensibilidade de forma muito bonita. Quando eu era criança, este era, sem dúvida, o meu livro preferido junto ao Sítio, que era uma coleção gigante. Li e reli muitas e muitas vezes. E sempre chorava e achava bacana chorar. Aquele Portuga habitava um mundo de pureza que vale a pena.

Ziraldo fez algo parecido com o Menino Maluquinho. Às vezes, eu tenho a impressão de que o menino de Ziraldo era o mesmo Zezé – uma criança traquina, normal e com chances de ser feliz e ter história para contar.

Quanto à dona Cecília Paim, juro que ontem eu me lembrei dela quando vi o descaso com que os professores são hoje tratados por tantas pessoas. Tantas.

E fiquei passada quando li a dica de economia de uma dita jornalista:

“Se quiser economizar, pense como homem. Segunda-feira, por exemplo, nenhum homem estará pensando em comprar presentes para a professora do filho. Boa oportunidade para começar a guardar seu dinheirinho.”

Livros felizes

A Lulu polemizou e desabafou a queixa de seus alunos: eles estão cansados de livros tristes. E têm razão. Respondi ao seu post lá no blog dela e resolvi copiar aqui.

O polêmico e, às vezes (leia-se quase sempre), disparatado Diogo Mainardi escreveu um dos melhores textos que li sobre literatura na escola: Os clássicos no chinelo. Ele acusa as escolas de entregar aos adolescentes cheios de espinhas os grandes livros antes do tempo e conseguir fazer com que eles odeiem literatura. E tem razão. Eu sempre comento isso com meus alunos. E, por isso e por causa da idade deles, eu escolho livros felizes para ler em sala. E falo dos porquês de ler um clássico.

A coisa é meio assim: seduzo pela delícia, depois mostro os dramas do mundo. Emociono, faço chorar ou arrepiar. Porque ler é um ato HUMANO. Demasiadamente humano. Como o Lord falou, alguns clássicos são para ser lidos na fase adulta, os pais dele tinham razão quando o ‘proibíram’ de ler Graciliano Ramos (o avô) antes do tempo .
Os adolescentes geralmente são felizes e eu comecei a ensinar cedo (com 17 anos, época em que eu era muito feliz) e percebi esta angústia deles há 15 anos, porque era a minha também. Eu, simplesmente, odiava a Clarice e todos os seus problemas de mulher de 40. Achava-a mal amada. Torcia o nariz. Na época.

As mensagens de esperança eram muito mais interessantes naquela idade, face ao mundo já caótico que eu começava a perceber, como Pollyana, O menino do dedo verde ou mesmo o amor triste, mas lindo de morrer do Portuga e de Zezé em Meu pé de laranja-lima. Sabe que eu não fui do tempo do Vicente Celestino, não o ouvira jamais, não conhecia sua voz, sua obra, mas , muitos anos depois, estava no interior da Bahia e ouvi uma radiola cantando numa casa e, imediatamente, eu soube que era o Vicente? E amei aquela música toda porque eu já a amava há muito pelas letras de Vasconcelos e pelos ouvidos de Zezé.
Um grande (grande em todos os sentidos) livro feliz é O sítio do pica-pau amarelo.
Sempre fui a Emília – até hoje – que faz-de-conta que quando as coisas não são exatamente como eu quero. Eu posso!

Escolho contos felizes. De amor, de amizade, de esperança, de beleza, de aventura, de mistério. Polissêmicos. Trato do superficial e depois entro nas entrelinhas com eles. Geralmente, eles se entusiasmam. E as provas sempre têm que ser com textos lindos de morrer, tipo Menino de ilha de Vinícius.

Outra coisa: literatura é fruição, é prazer e , na adolescência, não se sente prazer com a leitura que objetiva responder a uma prova. Me poupem, professores! Literatura não é assunto de prova, é formação, é fruição, é arte. E perguntar o que Michelangêlo quis dizer com a Pietá é matar a contemplação e as lágrimas que podem surgir ao admirá-la. Pelos livros ou ao vivo em Roma. Ler Machado de Assis para responder a questões de abecêdêé é o fim.

Acabei de derreter todinha ontem  ao ler O conto da ilha desconhecida de Saramago. E é um conto muito lindo. E meus alunos todos, cerca de uns 200, vão ler também. Porque eu o amei.

Adoro Felicidade Clandestina na sala de aula. Do ‘bulling’ ou da crueldade ao amante…
A biblioteca verde de Drummond é um sonho de poema e de amor pela leitura.
A ilha perdida é uma aventura deliciosa para esta idade. Dois amigos e um chato é uma coisa de maravilha de fazer amar a leitura que Stanislaw Ponte Preta inventou. Trabalho Ziraldo em qualquer série, até na faculdade, e Ziraldo é um maluquinho feliz.

Os adolescentes daqui amaram Crônica de uma namorada de Zélia Gattai. Isso ninguém me tira é uma livrinho legal para começar a gostar de ler. Dandara de Janaína Amado é de um erotismo picante para a 8a . Dias Gomes é sensacional em O pagador de Promessas. Adoro os autos de Gil Vicente na sala também. Cinco minutos é levinho… de Alencar. Calvino é fenomenal. O cavaleiro inexistente : muitas palmas aqui!!! Um livro maluco, divertido, inverossímil e completamente humano: os três personagens (Gurdulu, Agilulfo e Rambaldo) são as projeções de um eu tripartido. Impossível porque imperfeito ao extremo. Impossível porque perfeito em demasia. Existente porque humano com as projeções de perfeições e a realidade de imperfeições que nos torna o que somos. Um pouco Agilulfo, um pouco Gurdulu e, certamente, Rambaldo. Ou Bradamante.

Quando eu era adolescente, li a coleção da ática inteirinha e Monteiro Lobato também.

O nosso amor pelos livros acaba contagiando os alunos, mas realmente, crianças e adolescentes não merecem ainda ser moídos pelas mazelas humanas que algumas obras tratam com propriedade indiscutível para nós, adultos. Deixa que o tempo deles da desilusão chegará.  Eles ainda querem ser felizes para sempre. Ainda bem. E, se lerem os livros certos, poderão, quando a vida os massacrar, fechar os olhinhos e apertá-los bastante, fazendo de conta que… ainda vale a pena viver.

Aula na Ribeira

Hoje abandonamos as paredes da sala de aula e os meus alunos foram apresentar um trabalho ao ar livre, no ritmo “contar história”.

O tempo colaborou e sentamos na balaustrada da Ribeira a ver a vida passar enquanto os garotos falavam sobre Uma história da cidade da Bahia de Antônio Risério.

Uma pausa para sorvete na famosa sorveteria, claro:

Semana que vem, Pelourinho.

Amanhã, fotos no Seiscentos cafés.

Salvem a professorinha!

Se tem uma coisa que eu detesto é quando faço anotações no quadro e um(a) aluno(a) me chama insistentemente – como se eu fosse surda , sem entender que não viro imediatamente porque estou ocupada e o mundo não é o centro do umbigo dele(a). Para me irritar ainda mais, a inocente criatura me pergunta:

– É para copiar, fessora (ou pró)?

Inteligência brilhante. Juro que eu nunquinha abri a boquinha para perguntar algo do gênero a nenhum(a) professor(a). Ora, se eu estivesse afim e julgasse importante, copiava; se não, não copiava.

Obedeçam, súditos que só sabem seguir ordens. Nada julguem. Nestas horas, me consola lembrar Chaplin saindo da linha de montagem com o tique nervoso do apertar de parafusos em Tempos Modernos. A arte avisou há muito.

O poder de um pênis

Pênis. Esta foi a palavra mágica capaz de parar por mais de 15 minutos a aula inteira. Falei na palavra pênis. Gritos e risadas incontidas. Compulsão ao riso, à gargalhada, ao descontrole. Barulho de trinta vozes contando histórias, discutindo, falando … E, quanto mais eu falava, mais riso, mais balbúrdia.

O caso foi o seguinte: a aula era sobre leituras do vídeo, cinema e da arte. Então me lembrei de contar o vídeo que vi projetado na sala do Museu Rodin Bahia.  A filmagem é algo interessantíssimo: um líqüido vermelho-amarelo fritando, o dendê. O som do dendê no fogo foi colocado na sala da projeção para ambientar a cena mais ou menos como as exposições de Andy Warhol, e, no meio da liquidez do azeite, percebe-se a subexposição de um pênis ereto.  É místico, mágico e artístico o vídeo.

Mas bastou eu falar a palavra pênis que eu nem consegui explicar mais nada. Pura confusão. Deixei o clima como estava e os alunos gastarem as emoções. Uma parte estava enfadada, mas a outra – a maioria – eufórica. Percebi então o efeito catártico que tinha desencadeado e sugeri-lhes alguns exercícios. Primeiro, que repensassem o que consideravam imoral, pornográfico e indecente. Depois, que lessem Rubem Fonseca (particularmente Intestino Grosso e O Campeonato). Para encontrar um ponto de equilíbrio, que usassem a terapia para a síndrome de La Tourette (coprolalia): falassem, gritassem todos os nomes que conhecessem para vagina, pênis e sexo. Não, eles não toparam, contidos. ‘Expliquei-lhes’ então  que sexo é natural (muitos risos, muito assombro, muita gargalhada) e que a Igreja impôs a inferno, fogueira e guilhotina a idéia de sexo como pecado. Uns olhos se arregalaram ao ouvir que todos os avós e as avós e pais e mães fizeram sexo para que nascêssemos. Pedi-lhes para análise deles que buscassem então no cinema dois filmes de escolha própria sobre o sexo, o erotismo, a sedução.

Não consegui controlar os risos deles, as gargalhadas deles… tudo por causa do poder de um pênis. E falado. Imagina só se visto, tocado, sentido, gozado…

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Glauber ainda me fez conseguir encerrar a aula na faculdade, graças.

Provocação na aula dos calouros

 

Na aula que passou, provoquei os calouros com as perguntas: eu escrevo para quê? Por que eu escrevo? E para que e por que eu escreverei? Qual é a minha história com a escrita?

De presente, ofereço a ‘resposta’ poética de Paulo Leminski:

Razão de ser

 Escrevo. E pronto.

Escrevo porque preciso,

preciso porque estou tonto.

Ninguém tem nada com isso.

Escrevo porque amanhece,

E as estrelas lá no céu

lembram letras no papel,

quando o poema me anoitece.

A aranha tece teias.

O peixe beija e morde o que vê.

Eu escrevo apenas.

Tem que ter por quê? 

(LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. SeleçãoFred Góes e Álvaro Marins. 4.ed. São Paulo: Global,1999. p.133) 

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E você, escreve? Por quê? E para quê?

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Mais tarde, no Seiscentos cafés, as respostas de alguns alunos. Confira!

Expectativas

Existem pessoas que criam expectativas enormes em relação às demais pessoas com as quais convivem. Geralmente, aquele que projeta no outro os seus desejos ou padrões de comportamento, sente-se falido em relação às próprias forças e possibilidades. Aquele que espera receber amor, afeto, conhecimento, dinheiro, seja lá o que for, muitas vezes, pouco faz em relação ao próprio potencial de conquista.

Escrevo porque vejo alunos, por exemplo, acusarem professores de não lhes ensinar o que deviam aprender. Penso e reflito muito sobre a atitude: é cômodo ser o receptáculo do conhecimento, receber tudo mastigado, ouvir passivamente em sala de aula. O que o estudante de hoje está produzindo? O que anda discutindo? Pelo que se interessa? Debate? Pesquisa? Aprofunda? Questiona?

Reclama-se da quantidade de apostilas, exige-se prova medíocre, de preferência, objetiva. Compram livros? Não, tiram xerox. De alguns textos, todos não. É caro gastar os 0,10 por página de Platão, Galileu, Einsten, Marx, Machado, Asa Briggs ou Maquiavel que seja. Ler ? Só se cair na prova. E, na moral , professora, vou puxar seu saco que preciso ser aprovado.

Isso não é educação.

Crianças!

Minha afilhada de 7 anos pergunta à mãe:

– Mãe, se uma pessoa nascer com três olhos faz o quê?

A mãe, exasperada com as freqüentes indagações deste universo infantil (?!), responde-lhe: 

– Amarra uma faixa na testa.

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Minha irmã, de 14, ontem me disse que precisava de ter uma conversa séria comigo. Pensei em sexo, menstruação, namoro, beijo de língua, aborto, homossexualidade… tudo num átimo de um segundo, em flashes. A questão caiu sobre mim bombástica:

– Sim, pode dizer…

– Por que é que alguns personagens da Turma da Mônica têm dedos no pé e outros não têm?

– Ah, Pi, porque Deus quis assim… Neste caso, Deus é o Maurício. (E ri sem parar)