Amigos diferentes

Por que existem amigos com os quais contamos em horário específico, determinado e outros que passam hooooras conosco? Sábado, filosofávamos eu e uma amiga sobre os “amigos rápidos”. São aqueles que sempre têm hora para tudo, que vão a todos os lugares , mas na perspectiva de “vou dar uma passadinha aí”. Chegam depois de todo mundo, passam uns minutos, no máximo meia hora e vão embora antes da turma. Nunca estendem o programa, nunca alteram suas rotinas, têm o lazer como qualquer outra forma de compromisso acertado. Se vão ao cinema todos os sábados às dezesseis horas, nada os faz ir à noite ou mudar a tarde, passar o dia comendo lambreta, por exemplo. A praia tem hora certa para ir e voltar e também só comem sobremesa em tais dias da semana.

Disciplina é interessante, mas o exagero não aprisiona?

Por outro lado, classificamos os “amigos para sempre”. Estes, quando saem, estão sempre disponíveis, passam horas juntos, estendem os programas, emendam-nos com outros. Nunca são os primeiros a sair, chegam logo quase na hora marcada. São amigos para sempre porque a impressão que se tem é a de que, se não houvesse uma hora o corpo a reclamar o sono, a ressaca ou o trabalho a definir o “chega que amanhã é dia de branco”, ficariam para sempre ali, na mesa do bar ou na festa, rindo, conversando, brincando, filosofando ou até chorando as mágoas.

Precisamos da diversidade e de conviver com ela, mas sei não. Eu prefiro o segundo tipo.

Sobre Plutão

Não me assusta a mudança de classe de Plutão, assunto que causou frisson nesta semana que passou.

Eu adoro astronomia, adoro olhar para o céu à noite naquelas cidadezinhas em que quase não há luz e podemos ver também o céu da poesia, como o de Ícaro ou o de Mario Ruppuolo, em O Carteiro e o Poeta. Amo ver a astrofotografia.

Mas me incomoda muito a mania humana de classificar todas as coisas. Mais sensibilidade e menos razão nesse pseudomundo-racionalíssimo-e-tão-bárbaro-e-provinciano-e-tosco! Penso em Darwin e também nas classes de palavras, nas classes econômicas, classes escolares, animais, vegetais, sociais… etc etc etc. Por causa das classes é que a gente se perde neste mundo. Por causa da classificação é que se acentua o preconceito, se incentiva o mundo da aparência : pareça que pertence a esta ou aquela classe para pertencer a ela.

Ciência: verdade absoluta? Inquestionável? A própria história revela o contrário.

E sorrio ao pensar que o que Aristóteles pensou, Copérnico refutou, Galileu modificou… Os astrônomos de agora revêem e os do futuro também verão com outros olhos. Passei um tempo tentando, por curiosidade, entender o que Plutão era então, já que não era mais planeta porque assim os homens estudaram, comprovaram(?!) e decidiram. Não achei durante o primeiro dia da notícia o que Plutão era então. No outro dia, li sobre sua massa, suas características e etc… Para mim, o que verdadeiramente importa é as conseqüências de Plutão, simplesmente, existir. O que é Plutão para o homem e o que ele interfere na nossa vida.

A Lua influencia as marés, por exemplo. E mais os amantes e os poetas. Por isso ela é tão inteira, tão Lua. E Plutão?  É um corpo celeste (enquanto não decidirem os homens que é outra coisa). O que Plutão nos traz, o que transforma ou o que influencia ?

Blá-blá-blás à parte… Não interessam muito as denominações no âmbito que as pessoas as têm discutido.  Corpo celeste, astro, galáxia, planeta, sol ou satélite, nada mudará na sua vida porque o nome mudou. A ciência descobre que Plutão não pertence à classe dos planetas, então da descoberta derivam estudos que beneficiarão ou não a humanidade. Isso importa.

Qual a questão? Shakespeare é que estava certo neste mundo de ser ou não ser. Eisnsten também, quando encucou uns e libertou outros com a relatividade de todas as coisas…  Outro homem lá no passado da Grécia Antiga, um tal de Platão que não é o Plutão da questão, também já percebera as sombras projetadas na parede da caverna… Os limites da nossa visão. Camões, na Renascença, escreveu : ” Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se a confiança;/ Todo o mundo é composto de mudança,/ Tomando sempre novas qualidades.”

Gente, paremos de chorar a classificação declinada. Talvez seja um convite a repensarmos a falsa solidez dos conceitos. Dos dogmas. Das certezas. E dos absolutismos que nos levam à Tirania da Intimidade, da Política, da Fofoca, da Crítica Indiscriminada, do Preconceito, da Intolerância.

“Tudo que é sólido, desmancha no ar”, não é Marx? Um brinde às mudanças, ao repensar, às novas descobertas. Mas um brinde especial com cara de vacina à lucidez que devemos ter para lidar com o mundo dos homens, da racionalidade e da ciência. Senão, poderemos ficar (ou permanecer) como o doutor alienista de Machado: louco; ou como os homens do ensaio de Saramago: cegos que vêem não vendo.  

Por isso é que eu não fiquei pluta da vida, não me preocupei com as mnemônicas musiquinhas escolares ( aliás, acho-as imbecis: se posso memorizá-las,p osso decorar logo o que tenho que aprender).

Plutão não é mais planeta, mas (parece que) continua lá no céu… Take it easy, portanto.

Cortesia

Raul Cortez morreu nesta semana aos 73 anos. A notícia já caducou, mas eu preciso comentá-la porque penso nele desde que soube de seu falecimento, ontem pela manhã, bem cedinho.

Os brasileiros perderam um grande ator, isso já é clichê repetir. Sentiremos falta de sua atuação nas telinhas, de seu carisma, de sua capacidade de nos fazer odiar ou amar uma personagem. Todas estas palavras são outros clichês. Eu não sou noveleira, não vejo as globais há muito (as outras, nunca as experimentei mais tempo do que um mero capítulo só para conferir que não prestavam mesmo e pronto). Entretanto, embora eu não tenha o hábito de acompanhar as novelas, nunca vou esquecer a capacidade que Raul teve de despertar-me uma ternura enorme pelo “Francesco”, aquele que se enamorou da Paola (a belíssima Maria Fernanda Cândido). Também não esqueço o quão significativo foi o resultado de sua atuação.

Em tempo de novelas com pretensões didáticas, exatamente a falta de “didatismo forjado” desses atores foi que alcançou, pela naturalidade da espetacular atuação de Raul, o objetivo maior e subliminar, registre-se, de fazer a sociedade pensar e rever arcaicos preconceitos. Sem aulinhas de isso é certo ou errado, sem recadinhos ou depoimentos “verídicos” em fim de capítulo, sem precisar de discursos moralizantes, de verificação de IBOPE ou de adaptações e mudanças bruscas de roteiro, sem nenhuma destas mercantilizações dos comportamentos socialmente aceitos ou do que professam os novos psicólogos da atualidade, apenas pela arte de ser (excelente) ator, Raul me convenceu. A mim e a muitos mais, estou certa.

Lembro que eu era mais menina, menos madura e, àquela época, ainda atormentada pelos não-podes da rigorosa educação familiar que ainda me relegavam ao senso comum das massas preconceituosas as quais consideravam descaração ou interesse pelo dinheiro a relação entre una bella ragazza e un’ uomo vecchio. Mas Raul encantou. Pôs o bonitão do Antonny, do Lacerda e o resto do elenco no chinelo.

Não precisou roubar a cena, porque esta já era dele há muitos anos, muitos mesmo.

No palco verossímil da fantasia televisiva, o seu olhar, o olhar do ator Raul Cortez na pele do Francesco, demonstrou tanto amor à bela Paola que convenceu o público renitente e talvez a mim primeiro, de que, realmente, são estúpidas as convenções sociais e os estereótipos. 

Não houve charlatanismo, não houve falsificação da realidade no roteiro. Era uma vez um homem, era uma vez uma mulher. Simplesmente. E entre eles, macho e fêmea, surgiu o sexo, o sentimento e uma família. E Raul era o mestre na encenação. Ele é que seduziu a moça, que dobrou o público, que encantou as pessoas e enterneceu os corações. O casal superou os bonitões escalados para protagonizar as idas e vindas do amor, os altos e baixos afetivos que fazem a trama noveleira cair no gosto popular. Em final de novela, o filho deles foi o mais esperado, superando as expectativas que cercavam , inclusive, o casal protagonista. Tornaram-se companheiros em uma relação pautada pelos sentimentos, que começara, contudo, como se costuma dizer: como amor-bandido, já que ele era “bem” casado

Depois do humano e simples, tão simples Francesco, eu abri os olhos para ver melhor os homens mais velhos, para entender o quanto de amor simples e com cheiro de dedicação e colo lhes falta tantas vezes nessa vidinha de casamentos falidos, de manutenção das aparências sociais, de hipocrisia das relações. Passei a observá-los melhor, a enxergar no fundo dos seus olhos o quanto de incompreensão as dignas-esposas-de-papel-passado muitas vezes lhes oferecem. O silêncio velado que mantém um casamento de prestar satisfações sociais faz com muitos homens o que fez ao seu Francesco: sentir falta de uma companhia, de sorrisos, de segredinhos e de idiossincrasias. Falta de coração batendo alegre no peito e de motivos para desejar longa vida.

Nada é tão simples. Não subestimem os grilhões que uma sociedade é capaz de usar nos condenados sujeitos da vida real. Haja pedras atiradas aos que rompem os paradigmas do faz-de-conta que os Irmãos Grimmm e Andersen talvez tenham plantado juntamente com o catolicismo no inconsciente coletivo: o “até que a morte nos separe” e o “foram felizes para sempre”. A qualquer preço.

Por isso eu me lembro de outro Raul: o Seixas. Eu tinha 14 anos quando ouvi a letra da canção que revela o quanto nos traimos e nos fazemos escravos de amores que existem sim, no tempo e no espaço que lhes é reservado, mas não no infinito do para sempre. Àquela época, eu amava demais o meu primeiro namorado-de-amor-para-sempre para entender  a canção de Raul ou o soneto de fidelidade de Vinícius com toda a veracidade que carregam. Só o passar do tempo é que me trouxe a sensibilidade de que eu precisava para entender a força dos versos das “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”.

Há casais bem sucedidos economicamente, com filhos saudáveis, inteligentes e bonitos. Há esposas bem cuidadas e altivas, decentes, mulheres excelentes ao lado de homens bons provedores e bons pais. Todos estes ingredientes estão em diversos lares, em diversos tetos onde, infelizmente, co-habitam de papel assinado os casais encarcerados no labirinto da solidão a dois.

Nunca esqueço o depoimento de um amigo, quase sessentando, que me disse dormir “de valete” por mais de dez anos ao lado de sua digníssima e linda esposa. Fiquei pasma quando o ouvi conversando isso comigo. Um outro me disse ter se perguntado na noite de núpcias de um casamento que durou 35 longos anos, nos quais marido e mulher se revezaram no papel de algozes um do outro, o que era que ele estava fazendo com aquela mulher ali, naquele quarto de hotel. Por que se casar? Os motivos são muitos… um deles a tal questão de honra entre as famílias. Os exemplos são muitos, e eu os tenho não de pesquisas do Datafolha ou da psicóloga tal. Coleciono-as das mesas de bares, dos almoços domingueiros em minha casa, da convivência com pessoas comuns como eu e você.  

“Não posso entender tanta gente aceitando a mentira” que a Janete tanto quis manter (se não me engano, era esse o nome da personagem de Ângela Vieira, esposa de Francesco). Hoje não posso entender tantas “pedras sonhando sozinhas no mesmo lugar”, tanta gente negligenciando a própria existência, abrindo mão do próprio arbítrio, da escolha, da autonomia. No jogo de fazer-se de vítima e de representar o feitor, ambos, marido e mulher, amarram-se ao pelourinho das insatisfações e sobrevivem graças àquele jogo de culpas que faz tanto mal. Ela se submete comumente em troca de ter sua caverna aquecida e provida de alimentos. Também em troca da garantia de não precisar freqüentar as ferinas festas de família sozinha. Ele, da garantia de uma governanta de seus ternos bem passados e de sua comida bem feita, bem como de sua prole bem criada.

Amor, companheirismo, pés juntinhos nas noites de calor ou peito quente para aconchego, sorvete dividido, cartinha de amor, música para embalar as noites ou a famosa macarronada da madrugada: há muito tempo são detalhes esquecidos por tantos ou então se constituem dos surrupiados momentos nos encontros furtivos com os verdadeiros mantenedores dos casórios para sempre, os sinceros amantes. A escravidão por espontânea vontade por que muitos optam torna a sopa amarga, o café da manhã estressante, o almoço um estorvo. Este, graças à modernidade e ao seu corre-corre imperativo, já foi substituído pelos insonsos pratos solitários da comida a quilo nas cidades grandes.

Ambos, o Seixas cantando, mas, especialmente, o Cortez atuando, me fizeram perceber algo simples, embora um segredo da vida.  Por isso, não vacilei em viver os amores que a vida me trouxe, não tive medo da chuva, não fiquei imóvel na praia, pedra que chora sozinha no mesmo lugar. E a lição do sonho fictício da telinha se traduz na felicidade que talvez esteja no brilho dos olhos da moça Paola, mas, com certeza, na TERNURA que vi nos olhos do Raul Cortez. Porque seu personagem estava, simplesmente, FELIZ.

Hoje, saudades dele. E, como cortesia, uma homenagem ao GRANDE ATOR que foi.

Ócio do ofício

Estava aqui, no dia em que fui olhar a  minha despensa  para fazer supermercado e acabei descobrindo que minha casa estava repleta de verde-amarelo. Tem azul também. Nada de decorações ufanistas, acaba que o meu inconsciente se identificou e pronto. Gosto de cores alegres. Agora, entretanto, vou iniciar nova fase, romântica : rosa-shocking, pink, lilás, fúcsia… (risos)

Mas o osso do meu ofício me faz precisar ficar em ócio de vez em quando. Então, vamos ao post:

CAMPANHA : Nova bandeira do Brasil !

Descobri meus pratinhos na cozinha como são azuis e com flores amarelinhas

Então, a gente pode agora começar as peças :

Peça 1

Não esqueçam na copa que a comida deve estar no prato.

Placar na copa do brasileiro: fome zero!

Outros estandartes precisam ser levantados.

Brasil

Prato para musicar: a gente não quer só comida.

Prato para almoçar: a gente também quer comida.

Cantem todos, mas também caminhem!

Pra não dizer que não falei das flores…

O prato está vazio. A sua barriga está cheia? E a paciência, como vai?

O Mastercard leva à Alemanha, mas quem é mesmo que paga a sua lasanha?

Aqui cabem mais do que seis estrelas.

Se seus pratos andam limpos, o que é mesmo que andam lavando no paí$?

E você? Tem fome de quê? O que o seu prato vai dizer?

Estereótipos à parte ou incluídos !!!

Hoje eu conversava com um amigo intelectual(segundo ele). Sinceramente, socorra-me Sartre: ” O inferno são os outros!”

Versávamos sobre as amigas complicadas dele e seus problemas afetivos… O diabo foi o comentário capcioso sobre os homens que usam cinto de couro com fivela de boiadeiro, têm pick-up, usam chapéu e tal… Segundo o meu dileto amigo, estes seriam incapazes de fazer uma mulher feliz e por isso, obviamente, a amiga dele sofria. Deus! Se a indumentária ou a tribo a que pertencemos vestisse a nossa alma ou o nosso caráter, que pensaríamos então dos ´empaletozados´ governantes sujeitos à CPI, recebedores de mensalões e investidores dos cuecões? Abaixo todo terno no mundo? Seguindo tal raciocínio, é possível pensar então que os índios por estarem “vestidos de uma nudez emplumada”(Viva Darcy!), mostrar-se-iam, portanto, despidos de caráter?

Nossa, me assusta a Universidade hoje! Acadêmicos teorizam sobre identidade nacional, sobre ética, cultura e cidadania, sobre inclusão social e também acerca de igualdade humana. Isso para não citar a utópica Declaração Universal dos Direitos Humanos (para mim um dos mais belos textos) recitada às vezes de cor pelos mestres nos centros acadêmicos. 

Como podemos nós, míseros mortais impregnados de idéias preconcebidas, herdadas do cruel processo histórico de formação da identidade brasileira, entrar numa sala de aula e professar algo? Muita maturidade é necessária, leitura, informação, mas, principalmente, é preciso que cada um cheque suas concepções, seu ideário, seu conjunto de valores. “Todo ato humano é político!”

De nada adianta a teoria se, na prática de nossas atitudes refletimos, e, nas conversas despreocupadas vomitamos um catatau de estereótipos. Estes nos cegam(obrigada Saramago pela obra), alienam, mas também revelam quem somos.

Rindo, o amigo dizia que, se, um dia, eu o pegasse namorando uma bailarina country, poderia zoar com a cara dele. EEUUUUUUUUUU!?!?!?!?!??!

Provavelmente, não me recordaria das suas taxativas palavras, mas seria realmente capaz, sem ser piegas(talvez sendo), de observá-lo e perceber se estava realmente feliz ou se mantinha aparências. Acho INCRÍVEL (no sentido literal) pessoas prorrogarem ou manterem uniões pautadas pela aparência e às custas de dinheiro, status e satisfações sociais porque observo que estas, geralmente, implicam dividendos graves, vazios existenciais, neuras compensatórias, manias compulsivas e infelicidade latente, quase sempre.

Ponho-me a refletir… Então, qual o “padrão da felicidade” hoje?  Devemos manter o esquema “escola-cinema-clube-televisão”? A namorada deve ser loira; os casamentos, heterossexuais? O “príncipe encantado” deve ser dono de um haras ou ter uma mercedes e aparecer propondo o poético “felizes para sempre” ou o religioso “até que a morte nos separe”? Negro é vagabundo? Índio é preguiçoso? Mulher tem que fingir que todo cara é o segundo (já que a virgindade caiu mesmo)? Português é burro? Judeu é usurário? Árabe não presta? Políticos são todos corruptos? Não se pode confiar em quem tem dente separado? Secretária é tudo puta? 

Noooooooossaaaaaaaaaaa! Preciso urgente de um país ideal, de um mundo de mentirinha porque o de verdade está me matando!

Os incautos intelectuais da academia são capazes de falar por duas  horas ou 100 minutos de aula sobre as mais belas teorias (O que é cultura? Qual o conceito de Arte? O que diz o Código Civil? Ética e Cidadania…), mas me parecem incapazes de entendê-las. Demonstram uma prática absurdamente controvertida. Vejo-os hoje ilhados, sozinhos na sua soberba solidão “intelectual”(mas não a verdadeira, derivada do saber ouvir, ver e sentir o mundo, as coisas e, especialmente, as pessoas). Só se entendem entre si e passam horas a dissertar sobre a ignorância dos educandos, a frustração dos salários, a irritação cotidiana de perceber a alienação social… depois, arrotam os saberes que dizem ter e, sorrindo, cheios de si pela vaidosite aguda, retornam às suas casas onde dormem em paz até o dia seguinte.

Começo a pensar então na pobre condição humana… estamos relegados à diversidade ! (Confesso que fico por isso aliviada)

Contei ao dito cujo então em tom absurdamente sincero que eu não me sinto apenas uma, que admiro Pessoa mais pela sua condição de projetar os eus para além das máscaras – ainda que todos eles o sejam também. E também que eu adoro me vestir das múltiplas personagens que sou.

Gosto de Capra, mas desejo um dia namorar um surfista, destes bem estereotipados, que só pensam em prancha, mar e onda. Ao lado dele, um dia deitarei na praia, nada conversaremos, nada debateremos, nada polemizaremos. Mergulhados no profundo e absurdamente simples mistério de existir, talvez sem nem nos tocar, olharemos o céu. Nesta hora, estarei imersa na consciência profunda de todas as coisas.

O meu interlocutor, no papel de advogado do diabo, me perguntou: ora, Salvador está cheia de surfistas, por que não está namorando ainda um deles?

Ainda não encontrei o homem que será, além de humano e não medíocre, também estereotipadamente surfista. Mas já fui motogirl e bad girl usando casacão de couro e montando na garupa de moto… vivendo a plena liberdade de existir na estrada do Brasil. Na plenitude do estereótipo cápsula.

Também vesti as idéias da caminhante solitária, despojada de escovas, maquiagem e cílios postiços: só tênis, jeans e camiseta… Pernas para que te quero pelas cidades deste mundão…

Outrora, fui Cinderela ou Branca-de-neve em meio a paetês e lantejoulas bordadas nos alinhados vestidos de noite, elegantemente equilibrada no salto fino…

Lembro a gincana do meu colégio, quando tresloucadamente fui a criança do show da Xuxa que chorava ao vê-la pela primeira vez e também em outra ocasião dos desafios, a parceira pintada de tinta guache do ‘negomaluco’ mais engraçado que já vi… E da unha à testa, dos pés ao pescoço, eu era toda ‘negamaluca’ também… 

Rio quando me pego sendo a doce professorinha… a amiga leal, a filha bem comportada… E também sorrio ao ver o chifrinho de diabinha despontar toda a maldade quando resolvo sacanear alguém…

Divirto-me com os papéis sexuais a depender do parceiro… sim, parece que somos não o que somos, mas o que os outros querem que sejamos… Uns dizem que nos amam comportadas… outros que nos projetam prostitutas… Delícia (?!) é perceber que o chavão permanece: ‘lady na mesa e puta na cama’…assim se justificam as perversões masculinas. Sinceramente, eu me divirto com os seres humanos… Rio destas e mais outras idiossincrasias. Poucos se assumem como são ou se projetam corajosamente múltiplos… Mergulham numa pseudo bonomia que só nos descortina a perversidade do mito de príncipe encantado quando há tantos ogros do pântano capazes de bufar, arrotar…e também de se fantasiar de príncipes quando lhes convém!

Sinceramente, os mais radicais, aqueles que se pensam UNOS, INDIVISÍVEIS, MAIORAIS, convido-os a uma reflexão e a um passeio:

1. na História, veja a questão do ponto de vista oficial – sempre o da elite- e não se esqueça de que há outras versões possíveis;

2. na Religião, lembre-se de que a maioria do Ocidente crê num Deus que é trindade;

3. na Física, até o átomo é divisível;

4. na Biblioteca, encontramos pensamentos convergentes  e divergentes em múltiplos livros;

5. entre os seres humanos, embora toda a igualdade, estamos expostos à individualidade que nos torna plurais … etc, etc , etc.

Eu não sou de esquerda nem de direita nem estou no centro. Eu penso e avalio. Também erro.

Torço para o Bahia, mas não desprezo o Vitória: entendo que, sem ele, não haveria o campeonato nem jogo nem rivais nem adversários nem comemorações nem superação de dificuldades e derrotas… Somos opostos, somos discordantes, mas também concordamos e somos iguais.

Avalio com cautela aqueles que desprezam os movimentos de massa porque se dizem intelectualizados à parte da ojeriza social… Estes declaram, muitas vezes, sua admiração pela música clássica, enaltecem sua virtude e importância, mas não têm um cd sequer ou sequer conhecem A primavera, Ária (Cantilena), Pour Elise, A nona… ( e olha que só falei das populares!) Escarnecem alguns dos arrochas que espocam às sextas-feiras em Salvador nos bares de periferia especialmente.

Eu? Sabe de uma? Ouço Villa-Lobos ou Wagner, mas, muitas vezes, desligo o som do carro ao passar na Madereira Brotas retornando sexta à noite da Faculdade porque me delicio com a expressão dos agarrados arrocheiros que ao som do brega de Candeias simplesmente fruem esta tal de  existência tão teorizada e racionalizada nas academias.

E viva as setecentas mil vidas que podemos ter, não é Caetano???

Carpe diem a todos.

Uma (im)possível resposta

Literatura recontada, parafraseada, transformada, aproveitada, adaptada, reinventada: possibilidades contemporâneas ou falta de criatividade ?Não penso em falta de criatividade de hipótese alguma… Creio que , muito pelo contrário, é muita criatividade e sinal de muita audácia reverter ou subverter ou transgredir ou escapulir ou entortar ou rever as coisas, as histórias, as pessoas, o mundo!!!

Que bom que nós, humanos, aprendemos, ainda que lentamente , que podemos contar as histórias de outros jeitos… de outras formas…sob outras óticas… A nossa reação face a esta hipótese nos descortina a nossa própria visão da existência: se podemos contar histórias tão contadas por séculos de outra maneira, incluindo personagens, mudando cenários, fazendo novo clímax e desfazendo os parâmetros antigos… revelando as entrelinhas, descobrindo outros pontos de vista… QUE BOM !!!!!!!!! ESTAMOS SALVOS, SERES HUMANOS!!!!!

Divago um pouco agora e viajo na hipótese: vai ver que o grafocentrismo do mundo moderno pode ter sido exatamente um plano maquiavélico de soberanos da antiguidade para aprisionar a alma e a mente humana (risos). Sim, se se quis por um código, um conjunto de signos, representar a fala, os sentimentos e os pensamentos, pode-se ter ambicionado encarcerar a liberdade de expressão artística, as múltiplas linguagens (mais risos)… Vai ver que quem inventou a escrita queria acabar com a capacidade de se aumentarem os pontos ao se contarem os contos lá no tempo dos hieróglifos do Antigo Egito.
Hum… já sei ! Tive uma “eureca” ! E então…

Era uma vez um tal de faraó muito rico e bonito (já repararam como se associa a idéia de riqueza à de beleza?). Possuía muito ouro, prata e pedras preciosas. Seu reino era enorme e tinha um exército de ESCRAVOS. Enciumado por ver que seus antepassados viraram lenda , portanto eram cada vez mais mitológicos, grandiosos, heróicos, pediu então ajuda a um astronauta… ops, aos deuses (eta ! eram ou não os deuses astronautas?) .
Aí… (adoro as crianças contando histórias… sempre vem o aí… por isso não o abandono) Aí, o faraó ficou resetando seu cérebro humano pra ver se a solução surgia. Naquele tempo, ele não pôde ler A Arte da Guerra porque o livro ainda não tinha sido escrito (nem escrita havia…nem imprensa de Gutenberg nem nada). Desesperado, sem saber como conter aquela fama toda dos antigos faraós, seus antepassados, invocou todo o céu e não é que recebeu ajuda dos seres extraterrestres ? (EXTRATERRESTRE ??!!!!!! Ora, por que o espanto? Se os deuses moram lá no céu não são então extra = fora + terrestres?)
Aí foi iluminado. Descobriu que água mole ou estaca afiada, se bater na pedra, fura. E juntou um séqüito de homens. Mandou que eles registrassem, na enorme pirâmide que construiu para “viver após a morte”, todas as suas riquezas e seus feitos e suas glórias. Mas pediu a eles que estavam inventando a escrita, que aumentassem também um pouco os pontos… Ele queria ser o maioral de todas as dinastias. E baixou então um decreto: a partir daquela hora, só o que estava escrito valia. A palavra falada perdeu então a sua importância– vai ver que é por isso que hoje a gente não pode entrar num supermercado, comprar comida e DIZER que vai pagar no próximo mês… Não, não… temos que assinar um papirinho moderno pré-datado ou então ESCREVER nosso nome num boletinho on line para 30 dias…
A partir de então, a vaidade do faraó determinava o que era verdade : nada mais que fosse dito era crível. E o povo, obediente, parou de contar as histórias de seus antepassados ou passou a contá-las como se fossem fantasias lendárias. Tem mais ainda, caro leitor, como só havia poucos homens capazes de imprimir na pedra os tais símbolos gráficos, ele resolveu que o CONHECIMENTO da escrita seria para poucos a fim de evitar que a dispersão da técnica fizesse com que os mais teimosos contassem outras histórias melhores ou mais homéricas para os seus súditos. Só o documento assegurava a verdade e assim se esfacelou o conhecimento passado de geração em geração. Tudo virou dúvida quando antes eram verdades ou, no mínimo, possibilidades.
Mas como os deuses não são de todo ruins e não servem a apenas um senhor, ficaram com pena da humanidade, especialmente daqueles velhinhos que reuniam as crianças em torno de si para lhes falar do passado. E então sopraram no ouvido deles a novidade. Sábios que eram, os anciãos decidiram aprender a escrever e começaram a secretamente transmitir o conhecimento para as crianças. E elas foram percebendo que, quando inventassem a escola, poderiam ter a sua liberdade de expressão de novo garantida.
Mas o malvado do faraó só pensava no próprio umbigo, ostentava ouro, prata e buscava aparentar o que não era: um rei ou líder de verdade. Que… estava longe disto! Na busca insana da sua eternidade de fama, Vossa Celebridade convocou os assessores e lhes exigiu uma solução. Pensaram, pensaram, pensaram.
E tomaram uma decisão : a partir daquele momento, os cargos todos só poderiam realmente ser ocupados por quem o poder determinasse. Assim, os líderes estariam todos comprometidos com a troca de favores e seriam vigias para o faraó. Como gozavam os puxa-sacos de uma série de benefícios, muitos se batiam para ter este cargo (lá vem a tal de ambição de novo, estragando e bagunçando o coreto…). E foi assim que o faraó foi dizendo que esta profissão era mais importante que aquela, que tal função não era importante… Além de indicar os chefes da educação e dos demais setores, o poder ficou com a função de determinar os conteúdos estudados, as versões permitidas da História, as normas gramaticalmente válidas, o currículo a ser estudado… tudo, tudo o mais!
Resultado deste dois mais dois todo: os mais velhos, homens e mulheres que professavam as múltiplas verdades de vivências e saberes das gerações antigas, e também as lições de senso comum foram desvalorizados numa das maiores manobras de inversão de valores da história. Deste modo, o pronunciamento foi um momento solene, para o qual só foram convidados os mais VIP´s . A nova lei ditava: “me agrade, eu sou o poder, eu tenho a força e você pode se dar bem se estiver do meu lado”. Muitos se curvaram, então, para o faraó passar.
Assim tem sido a humanidade desde aquele tempo … O tirano da ficção, metáfora de tantos soberanos ou das elites privilegiadas, quase quase triunfou. Bolou um plano e guardou bem escondido o segredo da pedra filosofal com a qual se fez poderoso. Pegou uma arca, socou lá dentro o valor da oralidade, a imaginação, a felicidade do reino, a alegria, a liberdade, o amor, a auto-estima, tudo, tudo de bom que havia. E se declarou o maior astro pop de todos os tempos.
Só que ele não contava com o aparecimento de Dora… Danada como era, driblou os seguranças e, em busca de um autógrafo, xeretou o camarim da mega pirâmide cinco estrelas. A garota era lá uma jovem… quase criança ainda e não conhecia bem os rigores da lei. Percebeu que as máscaras que o soberano usava eram todas iguais: revestidas de jóias, ouro e prata por fora, aparentemente lindas, entretanto, ocas. E ele era humaníssimo como qualquer um. Sob a luz difusa das tochas, parecia um semideus, mas qual nada! Nada de deus grego nem romano nem egípcio. Era falível também. Errava. E o seu grande descuido foi não trancar bem a arca sagrada dos segredos.
Dora, atenta a tudo, descobriu-a e futucou-a. Descobriu, então, surpresa: a cegueira imposta aos homens de seu tempo. Dispersos, ofuscados pelas luzes do palco armado, surdos pelos decibéis pops, mudos pela censura imposta, não percebiam que há muito lhes fora tirado o que havia de mais precioso: a curiosidade. Doutrinavam cegamente a sociedade inteira e educavam as crianças ensinando-lhes o autoritarismo para os vencedores e a droga da obediência para a massa. As respostas aos seus porquês eram assim: porque sim, porque não, porque eu quero… nada de explicação! Só a imposição da força.
Astutamente, a menina então vestiu a fantasia, alimentou-se da esperança e abraçou a curiosidade. Escreveu tudinho no primeiro papiro que achou e, com o pó de pirlimpimpim que já era conhecido das antigas arcas, soproueste segredo em um objeto : um livro!
Até hoje, tempo tão tão tão distante daquela era … vira e mexe, quando alguém o abre, folheia e lê, pode de novo resgatar a humanidade outrora perdida, a esperança, a capacidade de sonhar. E ser feliz

(aos atentos gramatiqueiros de plantão, observem acima: não foi um erro de digitação, a história não tem ponto final!)

(Risos pelo devaneio)

Então, colegas, quando cremos que na literatura cabem todas as possibilidades que a História Oficial nos negou, temos a exata consciência de que a ditadura, a opressão, a ordem estabelecida até então, a tirania, o poder cego… todos os desvarios das classes dominantes podem, sim, ser abalados.

Uma pausa para pensar Balzac: “A literatura é a história privada das nações”.

Quem conta o conto sempre igual é porque perdeu o que de humano tinha: a autonomia, o raciocínio, a criatividade, a audácia, a possibilidade. Lembro O Velho e o Mar e penso que o ser humano pode ser destruído, mas derrotado não. Lembro as histórias fabulosas que nos doutrinaram com a idéia de que a lei é a do mais forte, que o esperto é quem vence, que quem espera sempre alcança. Então aplaudo os que tiveram audácia de criar e recriar o mundo, pela imaginação e na realidade, provando que é possível
sim, que haja histórias diferentes, diversas… Paráfrases, fusões, re-invenções… ( Cecília não poetizou : “A vida só é possível reinventada!” ? )
Se assim não pensamos, torcemos sempre para a força da Mônica derrotar a inteligência do Cebolinha, para a esperteza do Jerry vencer, humilhar e maltratar o Tom, para o Zé Carioca sempre fugir de suas responsabilidades e reforçar o estereótipo de malandro brasileiro com que o Walt Disney nos “presenteou”.

Ainda bem que se pode contar A NOSSA HISTÓRIA de uma outra forma, ainda bem que o mundo MUDA , que NADA DO QUE FOI SERÁ DE NOVO DO JEITO QUE JÁ FOI UM DIA,que nem toda FEITICEIRA É CORCUNDA, senão , nós , brasileiros, seríamos todos só BUNDA (valeu, Lulu, Rita e Zélia!).

Ao invés de repetirmos em sala de aula apenas o que aprendemos, com tantas e tantas limitações e pontos de vista impregnados do discurso oficial, da lei da elite , da visão de quem vence, da ótica de quem tem o poder, como , infelizmente, a História do Brasil que nos é contada em sala do fundamental ao ensino médio, façamos com nossos alunos e conosco um resgate daquilo que nos roubaram pela tirania e pelo abuso de autoridade, de poder: a nossa capacidade de perguntar POR QUÊ ?
Deste modo, em vez de decorar todas as datas dos fatos, entenderemos que estudar história é mais que mera cronologia: é análise de causas e conseqüências, é possibilidade de transformação pela conscientização de que somos os sujeitos do nosso tempo, da História e da nossa vida.
Também deste modo poderemos dizer aos nossos alunos que a Arte é essencial porque é o fruto da sensibilidade, da alma, dos sentimentos humanos… algo tão desvalorizado em mundo de materialismo e capital, de consumo e de bens. Então, poderemos seduzir os jovens e lhes transmitir a necessidade de resgate do interesse por si mesmo (e não pela celebridade da nova novela); pelo outro próximo e também distante ( e a alteridade não será somente uma palavra “difícil”, mas compreendida como parte e complemento do que somos); pelo meio em que vive (social, político, cultural) e pelo ecossistema, entendendo-se como parte dele e não apenas “um turista dentro da placenta do planeta azulzinho” (não é, Arnaldo, Marisa e Carlinhos?).

Então, leitores da palavra, leitores da vida, de si, do outro, do mundo, entenderemos, nós , professores e alunos, que, na literatura, por ser o espaço do possível, cabe até o impossível!

“A vida só é possível
Reinventada !”
Cecília Meireles

Alena Cairo 13/03/2006