Paralisação dos professores

Existem mães que se sentem chateadas com a greve dos professores, existem mães que não têm com quem deixar seus filhos e que têm uma vida apertadinha de compromissos e dançam um balé danado para dar conta de tudo. E eu entendo como mãe o quanto a falta da escola atrapalha a nossa rotina. Mas como professora, eu sinto um orgulho danado de ver as professoras da escola da minha filha conseguirem fazer a paralisação amanhã junto com a categoria, lutando não contra a escola, nem contra seus alunos, muito menos contra a gente, pai e mãe. É uma luta maior, uma luta contra uma condição social de desrespeito, exploração e indignidade que envolve a classe profissional como um todo.
Eu sinto orgulho destas professoras que cantam, dançam, ensinam, fazem projetos e acalentam o choro dos nossos filhos, que nos fazem felizes com o legado que eles trazem de novidades para a nossa casa todos os dias. Sinto orgulho pela formação delas, por saber o quanto são empenhadas, estudiosas e boas em seu trabalho. Sinto-me segura em deixar a minha filha na escola todos os dias porque tenho visto o quanto acertei na escolha.
Amanhã, eu vou dizer à minha filha porque a pró dela não vai para a aula: ela estará em uma sala bem grandona, junto com muitas prós de muitas escolas, todos debatendo e discutindo um assunto que diz respeito à dignidade dos trabalhadores, à integridade moral e à melhora econômica da vida delas. E assim a gente, pai e mãe, pode ter a certeza de que as professoras, mesmo ausentes, continuam ensinando: uma lição tão linda que eles poderão levar para a vida inteira. A luta por si mesmos, por seus sonhos e pelo seu trabalho. É assim também que se faz um mundo melhor.

Mãe estupefacta

 

‎2 anos e 5 meses de idade.
“Após passar um tempo de férias na casa da ‘vovó’, perguntei para ouvir sua resposta:
– Filha, você mora onde?
– No facebook, mamãe.
– ONDE (olhos arregalados), filha?
…- No facebook! (sorriso faceiro).”
Mãe estupefacta.

Dia dos Pais – homenagem póstuma

Meu avô Antônio foi o homem mais íntegro que eu conheci na vida. Exemplo de família, de bonança. Viveu para seus filhos e netos, viveu para sua família. Deixou-nos de legado principal a exata noção do quão importante é estarmos todos juntos, sermos éticos, termos amizade e, acima de tudo, valorizarmos os nossos laços afetivos.

Teve uma esposa, oito filhos, quatro genros, duas noras, 15 netos e hoje, se fosse vivo, teria 9 bisnetos (e mais um dois a caminho).  Soube agradar, respeitar, considerar. Foi um homem gigante, um forte como o sertanejo de Euclides da Cunha. E também um homem extremamente simples.

Lembro-me sempre, ao falar dele, do seu olhar de amor, da forma como nos enxergava, da verdadeira adoração que nutria por nós, suas netas. Lembro-me de quando eu ansiosa e alegre o esperava na escada de casa, chegado do interior, e de como ele trazia suas sacolas cheias de  coisas da roça, como o meu beiju que sempre vinha. E lembro-me dos banhos de mar que ele gostava de tomar aqui em Salvador.  E dos picolés que a gente chupava na praia: de coco e também de amendoim.

Lembro-me com ternura de como ele cuidava da gente, capaz de ficar sozinho com todos os netos e deles dar conta: brincar, distrair, consertar isto e aquilo, dar banho, pentear cabelo e arrumar todos sentadinhos na sala para ver televisão e comer um prato de biscoito de coco com uma colher de manteiga no final da tarde.

Quando jantávamos na casa dele, sempre havia a carne do sol com rodelas de tomate e um pouquinho de farofa. E a gente comia de tudo, mas ficava ali, esperando ele repartir entre todos o seu quinhão de carne.  Era como se fosse o prêmio. Também ele abria a lata de goiabada e o pacote de creme de leite e ia fatiando o doce de acordo com a quantidade de pessoas. Eu era privilegiada, ele sabia que eu adorava creme de leite e a minha taça sempre tinha mais que a de todo mundo. Mas eu sabia esperar para ser a última e ninguém ver a quantidade a mais. Era um segredo nosso.

Lembro-me dele escondendo a minha bicicleta porque eu morava em Salvador, armando a rede de vôlei que ele mesmo fez, na chácara, para jogarmos quando eu levava a minha bola. Lembro-me dele fazendo um balanço para a gente brincar e de guardar as goiabas para “as meninas de Salvador”. Lembro-me da cumplicidade dele com minha mãe, lembro-me de como ela o chamava de painho e como era doce este seu tom.

Porque a gente gostava, sempre tinha suco em sua casa; nunca me esqueço dos liquidificadores de maracujás fresquinhos, suco que ele mesmo fazia, às vezes tão doce. E pão com queijo, manteiga e presunto quentinho, que “estas meninas de Salvador” adoram.

Nas festas de São João, meus olhos brilhavam com a fogueira que ele se orgulhava de fazer. E a gente pequena, eu e Maurício, éramos seus ajudantes na roça: para lá e para cá, como carrapatos, atrás dele o tempo todo. Juntando lenha, enfeitando com bandeirolas, lavando amendoim e descascando milho. Tudo uma novidade muito grande, especialmente para quem vivia “na capital”.

Uma vez ele comprou uma máquina de moer manual para fazer caldo de cana. Bastava minha mãe pisar na chácara e lá íamos nós, girar aquela manivela infinitas vezes até tomar a garapa deliciosa com gelo e canudinhos de plástico nos seus inesquecíveis copos de alumínio.

Arrancar coco, encher o carro de mão e depois vê-lo homem abrí-los com facão nos fazia destemidos de tudo: ele poderia nos proteger contra qualquer coisa. A gente bebia até a barriga ficar enorme, um dois ou três, o que aguentasse. Os canudos eram cortados dos talos das folhas de mamoeiros e davam um gosto diferente à água, um sabor de passado bem vivido. Ficávamos jiboiando no sol com a barriga estourando de tanto coco. E rindo sem parar, como bem cabia a netos felizes.

Depois, ao entardecer, era a hora de ” uma volta de carro de mão”. E a gente sentava no carrinho enquanto ele passeava conosco. Às vezes, cabiam até três netos, os menores.

Ele nunca conseguiu nos proteger direito foi da chuva: gritava no terreiro para entrarmos e a gente pulava sem parar só para se molhar toda mesmo. Arrodeávamso e escolhíamos o caminho mais longo. Tomávamos banhos de poça d’água e corríamos de relâmpagos até ele gritar com sua voz de trovão “já para dentro, seus moleques!” Foi ele também que me ensinou a olhar as árvores, os animais e o céu para descobrir se choveria.

Ele tinha uma risada gostosa, um riso diferente, só dele. Uma gargalhada sonora. Lembro-me dele rindo ao ver novelas – noveleiro nato! O Bem Amado passou quando eu era criança e nunca me esqueço nem do sorriso dele nem do de minha mãe ao ver Odorico Paraguaçu e as três cajazeiras (apelido que virou nosso, três netas de Salvador) . Chico Anísio, Jô Soares e Os Trapalhões. Ele adorava! Seu riso enchia a sala inteira e eu nem sei se a gente assistia a ele ou ao programa.

Catar mangaba embaixo do pé para fazer sorvete. Juntar castanhas para assar. Vê-lo lendo o jornal todos os dias, balançando-se na sua cadeira de fios. Ou juntar os netos para chupar uma lata de umbu até os dentes doerem. Nossos pais não precisaram pedir para que ele brincasse de vovô com seus filhos. Deixava a gente brincar no escuro de cabra-cega, a gente fazer arrelia com os gatos e, de vez em quando, pular nas camas da Barroquinha.

Na ilha, dava a cada neto um chaveiro e a gente ia colecionando as chaves de abrir quitute para, como ele, imitando-o, pensarmos que tínhamos o poder de abrir tantas portas, fechaduras e cadeados.

Tudo que a gente gostava achava na casa  dele: bicicleta, doces, balas, alegria e aconchego. Um avô bem grande, diante de nosso tamanho criança, e gigante, se considerarmos as boas lembranças. Ele, às vezes com barba por fazer, arranhava em beijos os nossos rostinhos, dava uns tapas fortes nas coxas grossas e enchia de cheiros os nossos cabelinhos molhados depois do banho. É amor, é avô. É uma saudade que eu tenho hoje. Uma saudade muito gostosa.

Entusiastas

Freela de última hora. Urgente. Ainda pedi meia hora para dar a resposta. Obstáculos mil. Iria desistir. Pensei: se fosse antes, aceitaria? Sim. Aceitei então.

Uma hora e meia na estrada. Vinte minutos de burocracia para entrar. Desci um elevador desnecessário – a escada era mínima – ô conforto da atualidade! E vi o que há muito não via. Há muito, muito tempo mesmo.

Uma equipe inteira de funcionários entusiasmados. Muito entusiasmados. Muito eufóricos, muito alegres, muito … entusiastas. A maioria esmagadora de mulheres. Felizes pelo evento, felizes pelas condições de trabalho, felizes pela premiação que recebiam a todo e qualquer esforço fora do óbvio padrão. E confesso que fui aos poucos me tomando por aquela alegria toda, por aqueles sorrisos todos, por aquela simpatia emanada.

Havia percalços, sim. Era óbvio. Foram dirigidos, discutidos, levantados como meta a ser superada. Explanados. E elas eram valorizadas, e a música falava de amor, falava de bem-estar, convidava a dançar. E os prêmios eram bons, eram bonitos, eram desejáveis. E o reconhecimento acontecia.

Em troca, todos trabalham para consolidar um gigante no mercado.

Então me peguei a pensar sobre o que aconteceu com algumas das empresas em que trabalhei. Grande parte delas quando cresceu deixou de ser um modelo de gestão eficiente…  E ingressou na rotatividade sem fim de funcionários porque entenderam mal que os problemas aumentam quando a empresa aumenta. Cresceram e perderam a subjetividade, o reconhecimento individual. Ontem eram duzentas e cinquenta pessoas chamadas pelo nome, apresentações repetidas, ênfase a toda hora na identidade de cada um.

Eu era só mais uma convidada, anexa no salão, junto a  mais um punhado de pessoas alheias (algumas tinham os olhos brilhando), assistindo de camarote àquele evento. E percebi claramente que não era a única em minha fileira a sentir (pasme!) vontade de trabalhar com aquele grupo também.

Entre as mulheres, representantes de diferentes estados. Foco na regionalização, na individualização, na musicalidade de cada grupo, na identidade. Na beleza. Eram mulheres de todas as aparências. Eu consegui enxergá-las todas lindas, gigantes. É inegável que estavam felizes.

De melhor pagamento pelo freela, a certeza de que eu preciso ser assim de novo. O sorriso é a melhor roupa que a gente veste.

Cirque du Soleil Quidam

Quidam é uma prova de superação do humano, é uma ode à beleza, uma história de revelação do magnífico que o corpo humano pode fazer.

Quidam me encantou ao ponto de eu passar duas horas feliz, sorrindo, batendo palmas entusiasticamente e, por vezes, até com lágrimas aos olhos de emoção.  Desde 1996 que está em cartaz. Ao pensar no tempo, 13 anos após a sua primeira exibição, quando um magnífico ESPETÁCULO como este vem ao Brasil, mais exatamente ainda na sua cidade, não há como conceber ficar de fora. A não ser quando não fazemos idéia do que seja. Só o desconhecimento faz passar ao largo um show como este.

Segundo a definição da wikipédia,

“Quidam: um transeunte sem nome, uma figura solitária numa esquina da rua, uma pessoa a passar apressadamente. Podia ser qualquer um. Alguém a chegar, a partir, a viver na nossa sociedade anónima. Um elemento na multidão, um entre a maioria silenciosa. Aquele dentro de nós que grita, canta e sonha. É este o “quidam” que o Cirque du Soleil celebra.”

Logo no primeiro ato, Shayne nos faz maravilhados ao vê-lo girar e girar e girar na roda alemã em desafio `a gravidade e à possibilidade, com uma leveza que nos transporta ao universo onírico. As voltas e piruetas e a dança na roda entontecem. Lindo!

As menininhas chinesas revelam a destreza ímpar com o ioiô chinês. Os diabolôs rodam, giram, sobem e descem na corda enquanto dançam e realizam malabarismos e trocas entre elas. Palmas e mais palmas…

Força física parece o de menos face à graça e à leveza de Anna, enroscada no tecido vermelho, a voar em nossa imaginação. Contorcionismos múltiplos criam um efeito de rara beleza. Esquecemo-nos de que temos limitação e tudo é feito com tanta propriedade que nos causa a sensação exata de que também somos capazes de tanta superação. Quem foi que disse que o corpo é o limite?

O sincrônico saltar de cordas ao som de uma música capaz de enlevar a mais pesada das almas faz os artistas parecerem crianças livres de um tempo que a nossa recordação custa a crer. Transporta-nos para o deslumbramento de sentir as primeiras vitórias ao conseguir pular corda ou talvez aos olhos maravilhados de quem assiste a quem o faz com perfeição. A coreografia envolve 20 acrobatas que saltam e dançam num ritmo coordenado enquanto a magia das cordas girando enfeitam o ar.

Imagem do site oficial Quidam Cirque du Soleil

Imagem do site oficial Quidam Cirque du Soleil

As garotas e os arcos no ar a girar, girar, girar… voam em nossa imaginação e trazem suspiros de beleza. Um figurino belíssimo e a graça de meninas que bailam e voam, voam, voam…

O vídeo vale :

Os artistas se enroscam em cordas e nos revelam o que o ser humano pode fazer… quem dera nos ares estar assim.

Há apenas um grandissíssimo problema: ver em vídeo, na net, na foto e até mesmo na lembrança… não, nada supera a beleza do espetáculo ao vivo.

Asa e Jerôme em sua performance conseguem mostrar tanta simbiose entre um homem e uma mulher, dois corpos que se entrelaçam em posições deveras impossíveis, que me fizeram crer ser esta talvez a metáfora mais perfeita do AMOR.

Não se perdem um do outro, andam devagar, movimentam-se pouco a pouco, palmo a palmo, toque a toque… entrelaçam-se com uma sintonia que nos leva à leitura de um casal amante.

Há apenas um grandissíssimo problema: ver em vídeo, na net, na foto e até mesmo na lembrança… não, nada supera a beleza do espetáculo ao vivo.

Tive vontade de ir umas cinco vezes.

Era uma vez uma mãe chorando no teatro

O dia foi hoje. A idéia foi da tia atriz. O avô achou maluquice. A mãe topou na hora. Arriscou para ver como seria a estréia de Alice no teatro. Como espectadora, entendam.

Começou a dúvida a caminho: eu quase desisto de sozinha levar a baby mais  sacola e bolsa. A babá já viajara para a sua semana santa. Mas me lembrei bem de quem eu sempre fui:  apertei os cintos do bebê conforto e torci para ela não chorar muito até lá além de o trânsito também colaborar conosco.

Ela não chorou.

Encontramos a tia logo no estacionamento e fomos direto ao camarim, saber da notícia de que algumas crianças tinham chorado na véspera ao ver o coelho. Pensei com os meus botões: se ela chorar, dou peito para acalmar  ou saio de mansinho se não resolver. Paciência. Meio apavorada, meio confiante no meu taquinho de gente, avisei que qualquer coisa me perdoassem e que eu sairia estrategicamente pela esquerda se necessário.

Pense então em Pandora diante da caixa mágica…

foi Alice.

Enquanto os atores se maquiavam no camarim, ela sorria alegre, balançava os bracinhos, sacudia as perninhas e olhava todas as coisas: os espelhos, as luzes, as maquiagens, os atores e uma bandeja de pães (com cara de pidona – obrigando a mãe a disfarçar e levá-la ao outro lado, lógico).  Pois Alice adorou o tal do coelho. Olhava  tão curiosa para ele, que ríamos sem parar. Ela parecia então a estrela maior. (E era.)

Desci para guardar o lugar não sem mudar pelo menos umas cinco vezes até que retornei ao primeiro que me fora reservado: na primeira fila. Enquanto o teatro se enchia de crianças de escolinhas, ela observava hiper atenta toda a movimentação. O que eram as cadeiras, as filas, as professoras, as crianças de mãos dadas, os gritinhos desta ou daquela, os risos. Na telona, rolava um filme para aquietar a garotada. Mas Alice não lhe deu muita bola e eu cheguei a suar frio, temerosa de um escândalo com lágrimas por causa de um som mais alto ou tenso, de uma gritaria infantil qualquer ou mesmo do apagar das luzes.

Ela resolveu, ao toque do primeiro sinal, dar sinais de impaciência e reclamou daquele jeito chatinho que só os bebês conseguem. Comecei a ficar mais apreensiva. Numa ginástica em que só as mães são bem sucedidas, abri o fecho da sacola com Alice no meu colo, peguei a mamadeira, a garrafa de água e a lata de leite. Com uma mão apenas funcionando, destampei a mamadeira com cuidado para tudo não cair no chão, enquanto ela se sacudia e escalava meu colo para subir de pé e olhar a sala de espetáculos, coloquei a tampa da mamadeira virada de cabeça para cima em minhas pernas – a esta altura ela já queria pegar tudo que estava em minha mão ,  abri a garrafa de água, despejei na mamadeira, fechei de novo – e ela escalando, guardei a água, peguei a lata de leite, medi as benditas sete colheres (quem mandou eu esquecer o porta-leite-com-medida exata?), fechei com muito cuidado a mamadeira enquanto ela já gritava ao ver seu lanche. Sacudi forte para misturar ao som do segundo sinal.

Ela deitou e aquietou, rezei para ela dormir se não fosse ficar legal e imaginei umas trinta vezes onde era que minha cabeça estava para levar um bebê de sete meses ao teatro.

Pois soou o terceiro sinal e Alice olhou atenta a movimentação dos personagens que desciam coloridos por entre as filas de cadeiras abarrotadas de meninos e meninas.

A danadinha acompanhou a peça atenta, riu e demonstrou a maior atenção. Gostou. Quando o som ficava forte ou as luzes se apagavam, eu a abraçava mais pertinho. E se a platéia gritava com o coelho “É tarde, é tarde, é tarde!”, ela, como num jogo de tênis, revezava o olhar entre o palco e as cadeiras atrás de si, muito curiosa com o que acontecia.

No meio da peça, mais ou menos, Alice deu para me olhar e gargalhar, como quem diz “Tá vendo, mamãe?”, “que coisa maluca!”, “Que coisa engraçada!”, “estou me divertindo” e sorria, sorria, sorria. Com seus sete meses de vida, uma bebezinha ainda, ria de dar gritinhos e gargalhava de encantamento. Nesta hora, eu caí no poço de emoção e as lágrimas simplesmente me lavaram o rosto e a alma. Orgulhosa de minha filha e da

relação gostosa que ali se celebrava entre nós, chorei como só mesmo uma mãe pode chorar. E me lembrei também das tantas vezes em que minha mãe me levara ao teatro.

Se a música ficava tensa e muito alta, ela recostava leve a cabecinha em meu ombro como quem tinha a certeza de que a mamãe estava ali.  Mas o clímax ainda estava por vir. Por segundos, os personagens se calaram no palco. Acho que Alice entendeu que era a hora então de ela falar: com os bracinhos em largos gestos italianos, sacudindo-os afoita, a minha filha no idioma dos bebês palestrou um pouquinho, interagindo com a trupe em alto e bom som. E foi o sucesso porque os atores e o teatro inteiro ouviram-na maravilhados. Olhavam para ela e sorriam.

Quem herda não furta, diriam. Ao que parece, não só na minha veia corre o amor pela arte. A pequena Alice deu um show hoje.  A peça foi O tesouro mágico, de Xanda Fontes (a titia querida), encenada no Teatro Jorge Amado às 14 horas.

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É lógico que depois da sessão teve mais camarim, com direito a muito colo e abraços coloridos. A festa foi de Alice. Foi por isso que eu não deixei de dar umas beliscadas roubadinhas em um pãozinho para alegrar a barriguinha da minha estrela: e a mocinha ainda mastigou com seus dois dentinhos de boca fechada. Pode?

Voltamos exaustas às 17. De novo, ela não chorou no carro. Estávamos muito felizes para isso. Cúmplices e felizes demais.

Melhor visita de todas até agora

Minha tia Chuquinha.  Juro.

Ela é irmã de minha mãe. E não chegou aqui com discursos baratos nem ensaiados do M. da Saúde sobre amamentação e parto. Chegou dizendo: é difícil, é um horror, são dores horríveis. Contou-nos logo como foi com seus três filhos: Lízia, Tiago e Aline.

Ai, como é bom quem nos entende, quem não tem discurso de pastelaria…

Ela chegou hoje, contando-nos aqui como eu fui voluntariosa, como fui escandalosa, como fui chorona, como dei trabalho para ser amamentada, como sangrei os seios de minha mãe* que não agüentou e me deu suplementos…

Que coisa boa de ouvir!

Mãe, você que já morreu ( e viva que estivesse) , está perdoadíssima. Nem que eu soubesse antes que tomei suplementos e Nan eu me chatearia, mas agora, então, pode ir para o céu em paz.

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* Genética explica tudo.