Um homem só

A toada da canção entristece tudo … As bolsas sob os olhos parecem hoje ainda mais fundas, mais inchadas… Na moldura de um rosto másculo, os fios envelhecidos de uma barba por fazer quase grisalha. As marcas do tempo se percebem ainda mais nitidamente quando o olhamos varando os limites do físico e adentrando sua alma.

Tristeza. Solidão. Frustração. Certezas de ser só.  

O homem maduro, cansado da livre existência, mais uma vez constata o fim do romance que quisera eterno. Que faltara? É sempre assim. Despedaçado, passa os olhos pelo quase nada de pertences que lhe restam. Livros, roupas, discos, um som e … meia dúzia de itens mais. Que sentido há em querer os demais objetos ou móveis? Tudo pode ser refeito. Tudo.  

De relance, olha a estante repleta de livros e os sapatos na prateleira de baixo militarmente alinhados. Pode-se entrever uma sombra de solidão em seus olhos. Calado, caminha em direção ao quarto. Na cama, a mulher que fora sua até tão pouco tempo. À vontade, deitada está entregue ao deleite dos lençóis macios. Com certeza ela cheira. O doce cheiro de uma mulher…

Tira os olhos de cima do seu corpo, respeitoso pelo fim do relacionamento e , sozinho, fecha o armário de roupas ainda ocupado pelas suas camisas . Uma peça fica um tanto de fora e, delicadamente, com os dedos alisa a manga da camisa pra dentro da porta sanfonada. Nesse ritual tão mudo, parece querer entender os cuidados que outrora deveria ter tido. O silêncio está em sua alma, enche o seu corpo de vazios, corta a sua existência inteira. Tímido e silente, o adeus quase sussurrado ecoa entre as paredes que de tantos sonhos foram testemunha. 

Este homem é grande. Mas tão pequeno agora…

Sei que você fez os seus castelos

No último conto de fadas, a Branca de Neve foi beijada pelo príncipe que a levou embora em seu avião branco. Lá na terra da fumaça, ela foi feliz muito tempo. Então ela voltou à floresta e descobriu tarde que sua sorte estava traçada. O príncipe era um anão complexado e tramou largar a princesa no pântano de suas desilusões. Nem era a história de Aladin, mas puxaram-lhe o tapete mágico e … bau bau.

Aí, como dizem as crianças, a Branca ficou mais branca, cada vez mais branca, e quase desmaiou porque enquanto ela estava fora, tudo se desarrumara em sua vida. Meninaaaaaaa, foram precisos 9 meses para parir o filho da *uta, expulsá-lo de dentro do peito ferido.

Mas nasceu um novo tempo. Enfim.

A vida tão simples é boa

É isso aí.

Deu saudade hoje de todas as vezes em que eu tinha um alguém sempre a me esperar. Senti falta do companheiro de leituras. Ele lia o livro todinho calado, na dele. Depois, colocava o exemplar em meu caminho de todas as formas. Até que eu o percebesse. Quando as provas e o meu trabalho permitiam, então, eu me deitava à tarde de banho tomado na cama gostosa e lia… lia… lia… Findo o livro, à noite, em casa, com certeza, havia velas acesas, mesa posta e jantar especial. Vinho bom. Sempre os portugueses, de que gostávamos.

Mas a surpresa às vezes vinha em forma de buquê ou de jóia e de chegar mais cedo em casa, para tomar sopa e abraçar no sofá. Rapidinho, com disposição, o pão-com-café-e-sopa cotidianos acabavam virando bacalhau ao forno ou o maravilhoso spaghettini

E depois havia a varanda, um décimo quarto andar, duas taças e um homem e uma mulher. Que partilhavam leituras. Filosofavam. Discordavam. Argumentavam. Convergiam. Poetizavam. Intertextualizavam. E livros se transportavam de lá de dentro da estante para a mesa que recebia a luz do luar após a meia-noite. 

Companheirismo, sabe?

Recordo então o abraçar apertado na cama mais tarde. As pernas entrelaçadas. Os beijos nas costas. E a certeza de que acordar seria mais doce e menos vazio na manhã seguinte.

É isso aí. A vida tão simples é boa.

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 A vida tão simples é boa. É. E como eu a queria nesta noite!

Com outra pessoa…   

Dia poético

O dia poético sempre é o dia que escolhemos para sê-lo.

Podem ser todos os dias? Não, não pode. Poesia é para ser sorvida e dias poéticos precisam de contemplação. Não dá para acordar na rotina e fazer de conta que o dia é poético.

Durante anos, quando eu era professora do ensino fundamental, elegi a quarta-feira com todo o seu azul para ser o meu dia poético. A matemática era simples: segunda, dia de horror à semana de trabalho puxado, preguiça com cara de tenho que labutar, eram 12 a 15 horas de trampo em sala de aula. Terça tinha cara de “ai, meu deus”.

Assim, Quarta era o dia P-E-R-F-E-I-T-O.

Simples, quando eu começava a trabalhar, já era sinal de que o dia ia acabar, não faltava mais um dia para o fim-de-semana. Quarta  é véspera de quinta, dia de cine-mendigo, dia de sair à noite, dar um voleio imbecil no shopping. O segredo de quarta é que é véspera de quinta. E a gente sabe a humana idiossincrasia de comemorar a véspera. E o melhor, como quarta é véspera de quinta e quinta é véspera de sexta, estava tudo em pleno estado de comemoração. Já.

O segredo era simples: fazer da quarta, pilar da semana estressante, o dia de começos de risos com cara de folga… cara de fine settimana.

E por mais que eu trabalhasse quinta, este lance de saber que era quarta já me alegrava.

O tempo passou, entretanto, e elegi a quinta. Por causa do ex-amor. Ele amava a quinta, dia de vestir verde. A gente acabou assim amando junto a quinta-feira. E era dia de comidinha árabe feita por mim. Dia de chamar os amigos e fazer jantar em casa. Dia de tomar vinho até a Lua nos cansar na varanda e as poesias de Pessoa, Saramago, Drummond nos embriagarem de vez. Dia de discutir Nietzsche, de filosofar Platão, de descobrir Aristóteles. Dia de resenhar as leituras da semana na varanda gradeada (Ó como eu quis arrancá-las, as grades)… olhando por entre as frestas e acreditando no humano sonho de Ícaro… O vinho balizou os poemas, aguçou o olfato e o sexo entre macho e fêmea. E a Heineken alegrava as horas de tertúlias amorosas e amistícias somadas às gargalhadas de quem sabe ser feliz. Llosa, Neruda, Hugo, Veloso, Sousa Tavares… todos nos acompanharam… e rimos e rimos e rimos… brindando sempre à vida e a nós dois… que eu nunca esqueço o brinde.

Hoje, o tempo passou mais uma vez… O legado ficou e não mudei para a sexta. A sexta é comum, pertence a todos, banais, humanos normais que se arrastam pelos metrôs ou  nas estações sem sequer saber que existe vida após o trabalho. E que dinheiro dá prazer, não dor de cabeça.

E porque hoje é quinta, eu chego mais tarde sim, em casa. Trabalho muito, sim. Corro de um lado para o outro… mas tenho prazer em pôr eu mesma o alho a cheirar no azeite, os tomates a cozer, a cebola a refogar e os pimentões milimetricamente cortados a despertar a acidez que me é tão doce. Depois, os mexilhões, a lula, o polvo, o kani, a lagosta e os camarões a dourar junto, banhados naquele pouco de viño bianco que aguça qualquer sabor. O molho de tomates rega o riso, arbóreo e frondoso na panela, enquanto o açafrão ou a páprica dão a pitada certa que o sal complementa. A atenção é redobrada no cozinhar do feitiço para ser feliz…

E sento à mesa, taça em riste, para brindar a doçura de viver bem… um brinde aos que assim me ensinaram e aos que poderão desfrutar destes momentos… Porque a vida só é possível reinventada, não é Cecília?