Esse pretendente…

(sem censura)

Pela  segunda vez neste semestre, ouço de um pretendente diferente a frase : “Alena, eu tenho medo de você.”

Fiquei preocupada. Assim eu vou morrer solteira (minhas sinapses concluíram imediatas). Arrisquei a pergunta então: Medo de quê?

A resposta:

“Medo de me apaixonar de novo por vc, medo de amar vc novamente, medo de jogar tudo pra puta que pariu e correr pros seus braços … medo, medo, medo…”

Alena Cairo   diz:
“menos mal
tomei até um susto
esse medo é melhor”

Fez bem, confesso.

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Entusiastas

Freela de última hora. Urgente. Ainda pedi meia hora para dar a resposta. Obstáculos mil. Iria desistir. Pensei: se fosse antes, aceitaria? Sim. Aceitei então.

Uma hora e meia na estrada. Vinte minutos de burocracia para entrar. Desci um elevador desnecessário – a escada era mínima – ô conforto da atualidade! E vi o que há muito não via. Há muito, muito tempo mesmo.

Uma equipe inteira de funcionários entusiasmados. Muito entusiasmados. Muito eufóricos, muito alegres, muito … entusiastas. A maioria esmagadora de mulheres. Felizes pelo evento, felizes pelas condições de trabalho, felizes pela premiação que recebiam a todo e qualquer esforço fora do óbvio padrão. E confesso que fui aos poucos me tomando por aquela alegria toda, por aqueles sorrisos todos, por aquela simpatia emanada.

Havia percalços, sim. Era óbvio. Foram dirigidos, discutidos, levantados como meta a ser superada. Explanados. E elas eram valorizadas, e a música falava de amor, falava de bem-estar, convidava a dançar. E os prêmios eram bons, eram bonitos, eram desejáveis. E o reconhecimento acontecia.

Em troca, todos trabalham para consolidar um gigante no mercado.

Então me peguei a pensar sobre o que aconteceu com algumas das empresas em que trabalhei. Grande parte delas quando cresceu deixou de ser um modelo de gestão eficiente…  E ingressou na rotatividade sem fim de funcionários porque entenderam mal que os problemas aumentam quando a empresa aumenta. Cresceram e perderam a subjetividade, o reconhecimento individual. Ontem eram duzentas e cinquenta pessoas chamadas pelo nome, apresentações repetidas, ênfase a toda hora na identidade de cada um.

Eu era só mais uma convidada, anexa no salão, junto a  mais um punhado de pessoas alheias (algumas tinham os olhos brilhando), assistindo de camarote àquele evento. E percebi claramente que não era a única em minha fileira a sentir (pasme!) vontade de trabalhar com aquele grupo também.

Entre as mulheres, representantes de diferentes estados. Foco na regionalização, na individualização, na musicalidade de cada grupo, na identidade. Na beleza. Eram mulheres de todas as aparências. Eu consegui enxergá-las todas lindas, gigantes. É inegável que estavam felizes.

De melhor pagamento pelo freela, a certeza de que eu preciso ser assim de novo. O sorriso é a melhor roupa que a gente veste.

Terapia do amor próprio

Estou em fase de umbigocentrismo total, conhecendo cada pedaço de pele, cada cheiro esquecido, cada mecha encaracolada do meu cabelo.

Com tempo para me admirar, me olhar no espelho, gostar do que vejo, sentir o que há tempos não sentia.

Tempo para pensar em saúde, fazer dieta, olhar demoradamente as minhas unhas quadradas de que tanto sempre gostei.

Tempo para estar em paz com a balança, tempo para revisitar o chuveiro, para sentir o cheiro de minha cama, enrolar-me no edredom e abraçar-me com os travesseiros.

Tempo para os muitos casos de amor com a leitura, para devorar livros inteiros em paz, em meu cantinho, afim de mim.

Tempo para beber água sentindo o seu sabor  – oh, não, não tão insípido como se adjetiva!

Tempo para estar comigo, para estar em paz, para me sentir, para sentir bem.

Sobre os boicotes à mulher

Muitos casos de relação homem e mulher em que predomina a ótica machista se pautam na afirmação do sujeito homem a partir da negação do sujeito mulher, na objectualização da mulher.

O dia-a-dia consiste na infiltração de comentários depreciativos que gotejam na mente feminina como simples observações cotidianas ‘inequívocas’, interpretadas à luz de um partidarismno patriarcal e segundo os interesses de dominação do homem, sujeito da relação. Melhor seria dizer: senhor da relação. É um risinho porque ela deixou cair um prato (“você é tão atrapalhada…” “nem para pôr a mesa meu amor serve…”), é um comentário jocoso porque ela estuda (“não sei para quê… eu lhe dou tudo! Não dou, amor? Que mais você pode querer se já tem o meu amor?”), é uma crítica porque dirige parte de seu dinheiro para manter a auto-estima (“a gente em crise e você gasta com salão?”) … os exemplos são inúmeros. Vários.

Aos poucos, o homem mina autoconfiança da mulher, a faz abdicar do que é importante, a deixar de ser o eixo e o centro da própria vida. Este tipo de relação evolui pela negação absoluta do valor mulher e pela solidificação dos valores do homem, o dono, o chefe. E este insiste e não mede esforços, ora sutis, ora grotescos (“se eu terminar com você, arranjo mulher em qualquer esquina!”) para fazer dela o objeto INESSENCIAL da relação.

Quando a mulher chega a se sentir o inessencial, o nulo, a não-mulher, o contra-valor, urge que se repense e que busque o resgate, o retorno. Nem sempre ela conta com apoio – às vezes até sua família reproduz os valores sociais machistas e a condena quando pretende libertar-se.

Enxergar-se como SUJEITO da própria história e não se sujeitar aos ditames generalizados do outro e perguntar-se a si mesma quem é e onde está, onde quer chegar: talvez sejam os primeiros passos. Libertar-se da rede-armadilha pelo homem criada de que ele é o seu porto seguro, a sua via única de salvação, e buscar, sim, urgentemente, outras mulheres, para se solidarizar com elas e descobrir o quanto inequivocadamente os padrões (mesmo desgastados) ainda se repetem em nossa sociedade. É que é necessário que se construa uma teia de mulheres entrelaçadas pela sua condição mulher, pela sua singularidade enquanto sujeito da sua própria história a fim de que o discurso feminino realmente tenha voz e tenha vez, para que ele encha com o seu canto autenticamente assumido a sua própria existência e a da alteridade.

Quando ela se afirma e auto-afirma sujeito único e absoluto, sua voz chega a outras que, ao ouvi-la podem sentir o eco do ser que pulsa em si. E tomar uma atitude.