A poesia de um sepultamento

A poesia de um sepultamento

E a cerimônia a que ninguém quer ir um dia chega. Chega hoje, chega amanhã. Ou já chegou ontem mesmo. A pessoa não queria morrer. E essa não é a novidade.
Mas assim… ela preparou os filhos para não gostar de corpo morto, para não cultuar o caixão com a palidez e todo o sofrimento do não-vou-ver-mais você. E assim os meninos providenciaram uma urna fechada. E um violão e uma voz. E a música deu o tom que só nos fazia pensar no riso dela, a que se foi. E os acordes foram penetrando na alma… E é claro que uma lágrima teimosa rolou. E é claro que o coração ficou apertadinho com gosto de quero-mais-te-ver-te-ter-estar-com-você.
Mas o riso ia e vinha entre o embaçado da visão e o som da canção. Ao redor, a certeza da vida bem vivida, dos amigos feitos, do peito grande onde couberam tantos amigos. E o sol forte nos expulsava dali, daquele campo santo onde o físico um dia se encerra. Parecia querer nos lembrar da vida lá fora. Do sorriso dos netos. Das brincadeiras engraçadas. Da forma de se fazer tão presente, tão importante, tão solícita.
Então almoçamos juntos, todos juntos. E o riso veio com a memória. Com a certeza do que vai permanecer: a história. E o amor da gente.
Izabel, com Z. (Saudade da porra de você).

Existe vida além do pc?

Penso que nestes tempos de hoje, as reflexões metafísicas sejam a este respeito. Depois que eu virei mãe, ainda não consegui o senso de tempo necessário para dar conta da vida on-line como eu gostaria…

Alguém me conta como dá conta de twitter, facebook, msn, orkut, flickr, e-mails e blog ?

o QUE fazer no meio da noite sem sono?

Trabalhar? Ah, que saco, nem pensar. Zanzar sem rumo pela net e tomar umas decisões sobre a vida, anotadas no caderninho de realizações próximas. Ao menos.

Que falta que sinto de morar numa cidade mais cosmopolita com academia funcionando 24 horas. Poderia ir malhar agora para não me arrepender tanto do churrasco de hoje. E amanhã tenho aula às 7h30.

Férias pra que te quero!

____ * _____

Ao menos mudei(melhorei) o programa: revi Quem somos nós?

Escrevi uma cartinha para uma amiga.

Embalei um presente para outra.

Decidi acordar bem amanhã.

Vazio de cortar (meu) coração

Tá.

Ré confessa.

Tem alguma coisa muito estranha acontecendo quando você sonha com umas urucubacas horríveis, acorda no meio da noite de domingo, triste, triste. Vê tv, assiste às péssimas resenhas esportivas, nenhum filme que valha, uma bagunça inimaginável de provas a corrigir… resta o pc, s.o.s. solidão, procuro no orkut, converso no msn, marco uns encontros com amigas, relembro o dia… e estou aqui a descobrir novos blogs (pasmem!) ouvindo aquelas melodias infanto juvenis de Sandy e Júnior com um vazio daqueles no peito. Merda!

Tô doida.

Falta o coração bater de novo.

Só pode.

Proibido ser mulher

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É proibido ter passado.

 É proibido ser quem você é.

 

É proibido não ser virgem.

É proibido ter amado.

É proibido ter morado junto.

É proibido ter sentido desejo.

Na mente, no corpo, no sexo.

 

 

É proibido gozar.

Gozar é feio.

Mulher não goza.

Mulher não trepa.

 

 

É proibido fazer dieta.

É proibido fazer escova.

É proibido pintar as unhas de vermelho.

É proibido usar decote.

É proibido receber os amigos em casa.

É proibido ter casa se não se casa.

 

 

É proibido sair à noite sozinha, voltar para casa tão tarde.

 

Mulher não deveria beber.

Mulher não deveria saber.

Mulher não deveria querer.

Nem trabalhar.

Nem pagar suas contas.

Nem trepar.

 

Mulher abaixa a cabeça.

Mulher fala manso.

Mulher não diz palavrão.

Mulher não sente tesão.

 

Mulher é educada.

Mulher é mosca morta.

Mulher não se vinga.

Mulher não grita, não quebra prato, não se irrita.

 

Mulher não bebe muito.

Mulher não bebe cerveja.

Mulher nem bebe.

Só água, sucos e coquetéis sem álcool.

 

Mulher não vai ao estádio.

Mulher não vê jogo.

Mulher não anda em bar.

Mulher não conta piada.

Mulher é a piada na cabeça de machistas anacrônicos de plantão.

 

 

Conte-me outra.

Se assim é,

não posso ser uma mulher.

 

Mulher, meu caro, é tudo que se quer.

Ser.

 

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Conselhos úteis do leitor de Nuno Cobra

– Ô, menina, você tem que rever este seu horário.

– Eu sei.

– Tem que dormir mais, você dorme pouco. E tarde…

– Ai, meu Deus, eu preciso é de tempo para mim. Eu quero dormir.

– Basta você se organizar.

– A questão não é esta. A demanda de trabalho é muito grande. O que eu preciso é ganhar mais e trabalhar menos ( eu e a grande parte da humanidade). Não é fácil se sustentar sozinha e manter as coisas todas.

– Tenho a solução: trabalhe sábado e  domingo.

– Mais ?

Nunca durma à tarde

– Mas o sono da tarde é para repor o mínimo de horas necessárias, já que eu chego às 23h em casa e saio às 6h40 da matina. Ou seja, durmo apenas seis horas diárias.

– Depois a gente conversa, você precisa dormir mais.

– Ai, ai… (quimera)

Hipoglós tem cheiro de mãe

A minha um dia sorriu,

levantou-me as pernas com dobrinhas,

limpou-me as sujeiras

e conversou comigo enquanto punha as fraldas brancas

arrematadas por alfinetes de bichinhos.

Lembro um rosa que minhas bonecas herdaram e que me promoveu à condição de mãe de brinquedo pelos doces e saudosos longos anos de infância.

A pomada existe ainda e, se normalmente seu cheiro de óleo de fígado de bacalhau me repele a maioria das horas, hoje me transportou a um tempo quando havia abraço, segurança e ninar de sonhos.

Ela cantava o “faz três noites que eu não durmo, ô, Lalá , pois perdi o meu galinho, ô, Lalá…” Eu sei que eu era bebê e sorria, prestando muita atenção àquele olhar umbilical que até hoje vejo no espelho, nas lembranças, nas fotografias, nos guardados da memória.

Ela usava trança e trançava o cabelo com um lenço de seda colorido. Cheirava gostoso, não a perfume francês ou a qualquer um dos baratos. Tinha o cheiro que só as mães sabem ter. E eu, já moça, deitava em seu colo, inventava que achava que tinha pegado piolhos (aos 24 anos!) só para sentir o eterno deslizar de sua mão em meus cabelos.

Assisti tantas vezes às novelas no sofá estampado, juro, apenas para estar perto dela e ver-lhe o riso, o olhar marejado ou a incontida indignação.

Eu nunca a soube humana, limitada, nem animal. Minha mãe é de uma perenidade que só ‘a dona de tudo’ , a que ‘vale mais para mim que o céu , que a Terra, que o ar’, poderia alcançar. E como faz falta!

Peguei a pomada. Li o modo de usar: ‘limpe cuidadosamente a pele do bebê e aplique uma camada da pomada sobre a área a proteger, massageando suavemente’. Passei um tanto no meu rosto hoje com espinhas. Porque a criança que ainda sou precisava dormir com o cheiro de proteção que só a sua mãe lhe poderia dar.

Divagações

Amar é … gostar de fazer sopa sem gostar de sopa só porque o outro gosta de sopa. E pôr um pouquito no prato raso só para disfarçar e fazer-lhe companhia na mesa. É engraçado como eu aprendi isso. Então eu descobri que tenho um ‘potencial sopístico’ enorme. E que todo o amor que eu tenho precisa de alguém para que eu o distribua. Com sopa ou sem sopa. Mas não há muito homem dando sopa. Talvez muitos também já estejam de saco cheio da sopa de todo dia. Por isso vivo aprendendo a cozinhar novas delícias ( de ervilha, de sururu, de aspargos, de feijão – esta é a clássica etc.)

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Desde a minha adolescência já era moda ficar. Mas eu confesso nunca ter gostado. A gente já vai morrer como as alfaces, virar adubo, reciclável na terra que nos espera e eu ainda ter que encarar o descartável das relações? Não, meninos e meninas, sinto muito, mas eu não gosto.

Gosto de vínculos.  Não brincava só quando era criança, se não havia outras crianças, eu lia. Nos livros, encontrava a companhia dos personagens. E meu cotidiano foi povoado de família cigana. Gostava de primos e primas para brincar, não de bonecas sem vida. É por isso que me chateio hoje quando cozinho para um.

Quem está sozinho, consegue uma individualidade fantástica. Falta, entretanto,  alguém para ver filme junto, achar bom ou ruim depois, concordar e discordar. O contraponto existencial que nos faz realmente viver. Eremita é exceção.

Por isso, conviver, companhia, consorte, contente.

Puxar os cabelos

Faz duas semanas.  Eram 3h da matina. Um homem muito bonito, 1,80 m , modelo, gatíssimo, cabelo displicente com cachinhos, do tipo Erick Marmo, músculos definidos, camisa preta, ombros largos, calça jeans descolada. Uma garota loira (de salão, mas loira), sarada, de 1,65 m, trajando uma blusa preta e calça jeans cintura baixa.

Passaram apressados na porta da Fashion Club, discutiam alto. Ela o agarrou pela blusa, pedindo-lhe algo. O bonitão deu-lhe um empurrão, ela o puxou de novo e recebeu um tapa na cara. A garota tinha cerca de 23 anos, mesma faixa de idade dele. Ela segurou o braço dele, ao que recebeu uma torção no seu braço e teve o seu cabelo puxado. Ficou cerca  de 10 minutos com a cabeça pendendo para baixo porque ele puxava as madeixas com força enquanto torcia o braço dela. Uma senhora, produtora cultural, amiga de ambos, chegou até o rapaz e pediu-lhe que soltasse a menina, que se debatia com as pernas, posto que estava imobilizada pelo cabelo e pelo braço torcido para trás.

Após a cena, ele atravessou a rua e foi embora. A senhora segurou a garota que chorava muito. A loira dos cabelos puxados entrou num celta preto, arrancou cantando pneu. Gritava com alguém ao celular.

A noite silenciou de novo. Mas não sei não.