Recomeçar

Recomeçar

Rasgar-se de tão ferida
Só Frida.
Em cama de mágoas,
angústia, vazio e desamparo.
Auxílios capengas,
ajudas pequenas: insólitas.

Rasgar-se de raiva:
inconteste.

Manifestar-se.
Calar-se.
Oprimir-se.
Só lida.
Solidão.

Sumir. Calar. Morrer. Chorar.

Entre escombros, amar-se.
Levantar agonizante,
tropeçar.
Trôpega, andar.
Marchar.
Caminhar.
Espinha deveras curva,
tímida de medo.

Acreditar-se: catarse.
Perdoar-se: alívio.
Amar-se de novo: imperativo.
E de novo. E de novo. Novo invento cíclico.
Intento.

Caminhos, opções, atalhos dúbios.
Erguer-se.
Fênix feliz.
Apesar de.

 

Metáfora ou não

Descobri há pouco que meu relógio parou.

Se o relógio parou, parou meu tempo de coisas ruins.

Parei um tempo para cuidar de mim.

Parei no tempo com uma taça de vinho e tagliarini com gambas feito por mim em papo dez com amiga de infância.

Parei um tempo para curtir o descanso, desacelerar, sentir o tempo passar bom.

Parei para boiar na piscina.

Parei deitada de costas no deck molhado só sentindo a fluidez de ser humano.

Parei para ver minha filha sorrir.

Parei para ver as crianças brincando.

Parei para andar de bicicleta.

Parei e senti o vento no rosto.

Parei e tomei banho de rio, fiz ecoturismo e andei em turma.

Parei e vi que algumas coisas não se encaixam mais, não prestam mais, venceram a validade.

Tudo para o lixo.

Parei para tomar providências legais que há muito deveriam.

Parei o tempo e cuidei de mim.

Parei meu tempo e sorri.

Parei e nem percebi.

E foi muito bom.

Pressa? Nenhuma.

Há tempo. Sempre.

Carpe Diem

 

O desejo é irracional.  E ele pulsa. Pulsa. Pul…sa.

Dispensa explicações.

Coração em descompasso.

O sangue correndo tão vida em meu corpo.

Olfato aguçado, buscando o teu cheiro másculo.

Os ouvidos? Surdos por causa do coração batendo uterinamente – e tão alto.

É a boca entreaberta desejando explorar seu corpo, senti-lo próximo.

Sobrancelhas arqueadas como desafio,

prescrutando a correspondência do que se sente,

indagando inquisidoras se seus olhos tão miúdos me enxergam com o véu turvo do desejo.

Então olvido o mundo.

O exterior.

O outro.

As ideias e os conceitos.

Também as culpas que agrilhoam o meu suor, este que só quer, como rio para o mar, ir ao encontro do teu.

Olvido os então questionamentos racionais que tentam – em vão! – estancar meus fluidos… impedir a vida de fluir. E fruir.

Carpe Diem.

Traduzo-me em outras palavras

“Se não tenho outra voz…

Se não tenho outra voz que me desdobre

em ecos doutros sons este silêncio,

é falar, ir falando, até que sobre

a palavra escondida do que penso.

(…)”

José Saramago

Calei-me por muito tempo.

Tempo necessário de luto.

Tempo necessário de escuridão.

Tempo imprescindível de silêncio particular.

Tempo cheio de medos e censuras alheias.

Tempo findo.

E o blog?

Agora vai indo.

Alena Cairo

Amanhã de manhã

Amanhã de manhã

Vou despertar tranquila e serena.

Esticarei os braços,

lânguida e nua de pensamentos que antes me sabotavam.

Esticarei as pernas

para ter a certeza de que posso caminhar.

Por isso vou desenferrujar

as minhas concepções de estrada.

Vestir-me-ei de mim mesma.

As possibilidades são minhas.