Caminhos

O cinza das nuvens e a chuva pálida
há anos metaforizam o coração de concreto.
Se torrencial,
melhor ainda explicam os impossíveis.
E o nada.
O só.
E o vazio lamentável.
Mas conformado.
Itinerante recluso.
Tons amarelos,
árvores semimortas,
folhas caídas do outono de repente
fazem a atmosfera de inverno particular mudar.

Na lógica maluca do tempo,
as alegrias primaveris deveriam se estabelecer
e as cores invadirem os espaços internos.
Olhos de arco-íris.

Outras eras.
No contratempo biográfico,
o tempo de ré no renascer:
outono de quimeras.
Tempos mais brandos.
Felicidades mais simples.

Assim, assim.

Sobre o jogo Brasil x Alemanha

Enquanto eu não tinha filho, não me preocupava muito com o futuro (o a longo prazo). Era mais imediatista como cabia à minha juventude talvez. Era mais tensa mesmo com o daqui a pouco ou daqui a um ano. Sempre achei que tinha todo tempo do mundo como cantava a Legião. 
Hoje com Alice me sinto diferente e a cada fato que acontece me pego muitas vezes horas e, às vezes, dias, imersa em reflexões sobre o impacto que a educação dela terá sobre a sua pessoa (sabendo eu que tentamos acertar, mas não podemos assegurar vitória absoluta do que projetamos porque o outro é o outro). Vivo pensando no impacto que a minha forma de ver o mundo causa nela, no tom que verdadeiramente reverbera, nos ecos que ficarão… E, PRINCIPALMENTE, penso no que ensino sem saber que estou ensinando, no ‘currículo oculto’, na força do exemplo, da minha forma de agir que nem sempre é exatamente afinada com o que idealizo ou proponho nem o modelo ideal que almejamos. 
Quando fui vendo a derrota da seleção de futebol acontecendo e de forma tão realmente humilhante, me senti perdida no misto de meus próprios sentimentos e na necessidade urgente que eu tinha de traduzir aquela perda para ela, minha filha. O que dizer? Como agir?
Ela me viu triste, pensativa, chateada e me perguntou porquês o tempo todo. Não sei se soube responder como deveria. E ainda estou no meio do turbilhão. 
A certeza que tenho é que sou de uma geração que riu de si mesma, que riu do outro, que riu do país e que teve uma autoestima enquanto povo muito fraquinha. Exceto no futebol. Por isso jamais aceita perder uma partida, empatar ou mesmo ficar com prata ou bronze. 
E sei, na prática, também, que isso de malandragem, levar vantagem e se dar bem ficou muito longe de ser o ideal para educar o povo brasileiro. É um perfil que não conduz a bons caminhos.
E eu tenho uma outra certeza muito forte de que não gostaria de ver a minha filha crescer com autoestima baixa nem enquanto pessoa, nem enquanto mulher, nem como brasileira, latino americana. Já está mais do que na hora de uma outra história e tudo aponta para uma revisão da nossa identidade.
A propósito, incomoda-me profundamente a alcunha de povo sofredor porque sinto embutida nela uma justificativa que parece amainar a garra de fazer diferente. Um conformismo tácito foi gerado com esse MITO. 
Não consigo massacrar os jogadores, nem o goleiro, nem o técnico. Perdi junto com eles. Eles jogaram com a camisa que também visto por nascimento e por escolha. E não foram vendidos, não estavam pouco se lixando, não acharam graça nenhuma. Estão tão decepcionados quanto nós. A derrota deles é a derrota do país também. Sinto vergonha como eles e com eles. Fiquei puta, fiquei nervosa e fiquei com a cara de cu que os 200 milhões ficaram. 
Saí (para espairecer) após o jogo, fui ao mercado, abastecer a casa, retomar a vida, reajustar os trilhos… Fui, depois, caminhar sozinha com meus botões por uma hora. E vi muitas crianças levadas pelas mãos de seus pais, pelas mães, por suas avós… todas vestidinhas de verde e amarelo. E as maiores estavam com a decepção estampada no rosto ao lado de familiares que pareciam querer superar o próprio sentimento. As menores brincavam como se nada tivesse acontecido ou como se o passado já fosse mesmo passado no parque infantil às 21h do dia desse jogo. 
E nessa uma hora a pé… revi minha história pessoal e constatei que só quando me preparei bem obtive bons resultados. Ainda quando preparada, não garanti as vitórias que escolhi porque sempre houve, há e haverá mais variáveis do que a gente pode prever. Mas técnica, estudo, preparo, organização podem mais conduzir a resultados favoráveis. Foi o que a Alemanha imprimiu diante de um time que ficou atônito vendo a tsunami de gols levar seus sonho embora.
Então acho que cheguei ao que eu quero dizer a Alice agora: a vida continua, o parque está aqui e a escola amanhã de manhã. Não é hora de rir de si, não se escarnece de si próprio, não faça isso, filha, leve-se a sério. E isso não tem nada a ver com o fato de ser engraçada ou de saber rir das intempéries. Aprenda com a derrota, analise o que falhou e se reerga. Sempre. 
E nunca se esqueça de que somos nossos maiores inimigos. 
Apenas uma seleção ganhará. A gente não ganha todas e a vida nos bate diariamente. Ficamos entre as quatro melhores. Já tem um mundo para bater na gente e não sou eu que vou ficar dando soco no espelho. Hora de catar os cacos e repensar os caminhos, fazendo, com certeza, escolhas diferentes das que conduziram à derrota.

A poesia de um sepultamento

A poesia de um sepultamento

E a cerimônia a que ninguém quer ir um dia chega. Chega hoje, chega amanhã. Ou já chegou ontem mesmo. A pessoa não queria morrer. E essa não é a novidade.
Mas assim… ela preparou os filhos para não gostar de corpo morto, para não cultuar o caixão com a palidez e todo o sofrimento do não-vou-ver-mais você. E assim os meninos providenciaram uma urna fechada. E um violão e uma voz. E a música deu o tom que só nos fazia pensar no riso dela, a que se foi. E os acordes foram penetrando na alma… E é claro que uma lágrima teimosa rolou. E é claro que o coração ficou apertadinho com gosto de quero-mais-te-ver-te-ter-estar-com-você.
Mas o riso ia e vinha entre o embaçado da visão e o som da canção. Ao redor, a certeza da vida bem vivida, dos amigos feitos, do peito grande onde couberam tantos amigos. E o sol forte nos expulsava dali, daquele campo santo onde o físico um dia se encerra. Parecia querer nos lembrar da vida lá fora. Do sorriso dos netos. Das brincadeiras engraçadas. Da forma de se fazer tão presente, tão importante, tão solícita.
Então almoçamos juntos, todos juntos. E o riso veio com a memória. Com a certeza do que vai permanecer: a história. E o amor da gente.
Izabel, com Z. (Saudade da porra de você).

Outros ventos sopram,
outras brisas quero sentir
na calmaria entre tufões do existir.
Outros espaços se configuram,
novos projetos se delineiam
e os ânimos a alma incendeiam.

Soprar. Respirar. Inspirar.
Calma, lânguida e misteriosa
a rir dos destroços jocosa.

Pedaços, espaços, carcaças:
obsoletos.
Caminhos, desejos, vontades:
dialetos.

E lá vem ela, a brisa intentada.
Sopra, leve, bosquejando a história.
Capitanear é preciso.
Agora.

Há dias

Há dias em que , simplesmente, tudo funciona bem.
Há dias em que sua tolerância está maior, seu bem-estar prevalece e as coisas, tacitamente, acontecem.
Há dias em que a leveza se instala suavemente e vira promessa e projeto de vida.
Há dias em que o azul ilumina. A alma.

Ponto a ponto

Um mês e dezesseis dias com sutura.
Tudo errado, eu sei. Não recomendo.
Procurei médica amiga, paciente, delicada… não, não deu. Muita dor e recomendação de passar pomada e tomar anestésico na hora. Faltou coragem, resolvi ficar Frankenstein para sempre…
Era mesmo um plano.
Aí hoje (há dias venho pensando nisso), saradinho, tudo fechadinho, resolvi cortar os pontos com tesoura estéril e tentar puxar… até… amanhã … com a ajuda da pomada e dos anestésicos. Respirei fundo (umas 25 vezes), deitei na cama porque tenho gastura… minha pressão abaixa… abaixou mesmo, fiquei lívida… abaixei a cabeça e, quando pude respirar calma de novo, segurei a pontinha da sutura só para sentir como é que ela estava. Depois de sentir o drama, passaria a medicação. Entretanto, magicamente, como se fosse preso em indulto de Natal, o fiozinho transparente deslizou macio pra fora do corpo. Um por um, menos um, menos um, menos um e menos um. Não eram cinco? Ou um ficou para dentro ou saiu sem que eu visse num destes dias em que machuquei a mão já machucada. Ufa!

The end

* * *
Agradecimentos sinceros e aliviados desta mulher extremamente sensível quando se trata de procedimentos médicos (outros diriam : frouxa) às amigas que acompanharam o drama: Lorena Formosinho, Kau Fernandes, Mariana Landinn e Andrea Specht Dortas.
rs

A morte

A morte rasga,
dilacera, 
expõe as entranhas, 
tortura
essa civilização despreparada para a brevidade. 

A morte incomoda.
O outro.

A dor tem cara de pasmo.
Aspecto de estupefacção.
Cara de espanto.
A dor se finge de ‘estou bem, obrigada’.

O outro: não quer ouvi-la,
não quer vê-la em lágrimas,
debater-se,
jogar-se no chão,
gritar inconsolavelmente
até a exaustão…
adormecer o corpo de quem a sofre – a dor.
Caminhar mil voltas sem saber nada nem para onde.
Este onde que nem existe mais.

O outro precisa entender que a vida continua.
Não o sofredor, mas o outro, 
aquele que passa ao largo dela – a dor. 

Este outro precisa ver-te de óculos escuros,
sorriso amarelo, mas ainda sorriso.

Porque a tua dor não te incomoda mais do que a ele.
Ele, mísero, é humano.
É pequeno.
E se sabe igual a ti: falível. 
Passível de todo e igual sofrimento.
E é isso que o incomoda. 
Essa humanidade toda que o atordoa.
E o torna incapaz.
De compreender.
De agir com exatidão.

Ele te quer bem. Quer-te feliz.
Indefectível.
Mas tu não podes mais fazer-te do que não és.
Só dor, só rasgos, só queimadura aberta no peito.
Mágoas da vida ferida.
Tu não podes pôr o teu vestido de flores 
e sair leve pela manhã.
As flores estão despedaçadas.
E o vestido sem cor.
E o céu. O mar. A noite.

Tu és um naco de peito. 
Pedaços de lágrimas.
Resto de gente.

Porque a morte bateu em tua porta.
E te feriu impiedosamente.

Louca: tu te sentes tendo que continuar a viver.
Mas ela, a vida, é imperativa.
É uma ordem para os que não desistem.
E ela insiste, severina, a te abrir os olhos e a te fazer enxergar 
o que tu ainda demorarás séculos a ver.

Este é o teu momento. A tua dor. O teu desespero. O teu rasgo sem regaço.
Sente-o. Ainda que sozinha por vezes.
O outro não sabe.
Não. Não tem como saber.

A dor te abraça. A morte perpassa. 

Até que tu renasças.

Alena Cairo , 23/10/2013

 

Salas para uso

O conceito de beleza em uma casa é mesmo tão relativo! Salas indefectíveis nunca me atraíram. Tá, são bonitas de olhar. Mas me vejo aqui , esparramada no sofá, tv ligada, mesinha roxa de apoio (roubada da varanda) com caderno aberto, lápis, hidrocor, canetas, papéis espalhados, note no braço do sofá… e acho tudo isso incompatível com o projeto de um mini gabinete cheio de prateleiras. Vou arrumar lá e trazer para cá. Nada funcional. Então é melhor ver o que consigo fazer de prateleiras e nichos pro aqui mesmo, com meus vasinhos coloridos de mil materiais escolares.
É… porque beleza sem uso é beleza morta. E antes de casas perfeitas para gringo ver, prefiro casas de verdade para eu viver.

Devaneios no supermercado

Tenho a mente inquieta. Morosidades me enfadam. Conversa lenta, gente lenta, qualquer coisa que não flua. Tipo fila. Então derivo. Meu pensamento me leva a outras dimensões. Daí que em toda vez que eu faço compras, enquanto aguardo a famigerada hora de ficar mais pobre na carteira, fico analisando as compras dos outros nos carrinhos. E aí, minha cabeça começa a coser histórias.
Olho a cara, o perfil de empáfia da senhora ou as olheiras da mulher de 30 que denunciam um filho ainda pequeno em casa ou mesmo o jovem casal ou o trio de adolescentes tagarelas… e fico a tecer a vida de cada um. É uma profusão de hipóteses.
Um carrinho cheio de água mineral, queijo francês, cerveja importada, brócolis e rúcula nos leva a personagens e enredos diferentes de outro com biscoitos recheados, danoninhos, cheetos e coca-cola. Há quem compre uma unidade de cada coisa, mais produtos de limpeza que comida… mora só e não come em casa. Ou quem leve 24 cervejas numa compra rotineira… sinal de barriga grande ou festa sempre, vai ver tem varanda em casa e lirismo na alma… 
Acho graça dos que compram muito frango ou que se entopem de sucos de caixinhas (aquela coisa doce e insuportável). O tamanho da família? É fácil: basta contar os rolos de papel higiênico que a pessoa leva. Pacotes com quatro, seis, oito, doze ou dezesseis… e ninguém discorde porque acho bem pouco provável que haja gente sozinha estocando papel higiênico para o fim do mundo. 
Mulheres jovens compram absorventes, descoladas levam o interno e os homens, de vez em quando, pegam aquelas meias que ficam nas gôndolas perto dos caixas. Acho legal homem que compra fruta e verdura, me dá uma sensação de gente boa, de pai ou marido legal, tipo de homem com quem eu aceitaria uma união (estável, por favor, que de instável já basta !). 
Jovens em turma compram menthos e juntam as moedas para as caixinhas de tic tac que salvarão seus hálitos nas jornadas de beijos que a semana promete. Meninas envergonhadas colocam 32 coisas numa cesta só para esconder o pacote de absorventes que tiram rápido na sua vez e embalam de modo mais ninja ainda após pagarem, largando as 31 coisas para trás…
Crianças enchem o saco dos pais e conseguem os doces e chocolates que querem, tomam um toddynho, um iogurte, um refrigerante ou suco de caixinha e ainda abrem o pacote de biscoito e o de salgadinhos para, lambuzadas e sujas, sorrirem com a expressão de vitória que só os tiranos e elas sabem bem fazer. Típica casa em que os pais trabalham demais.
E a vida se desdobra em cada carrinho ou nas modestas cestas: é prenúncio de festinha se se compram 12 latas de leite condensado; são sinal de almoço em família ou solidão absoluta os potes de sorvete derretendo na exaustiva fila, por cima de um carrinho abarrotado de compras ou junto a meia dúzia de itens.
É possível ver o strogonoff – se há creme de leite e peito de frango, de adivinhar a feijoada quando há dois quilos de feijão preto e carne suficiente ou sentir o cheiro imaginário do churrasco se o senhor compra picanha, calabresa e cupim. 
Gosto de pensar em jovens casais que têm janelas – quando os vejo comprando vasinhos de flores e no marido previdente, que leva lanterna e pilhas, possivelmente vulnerável por causa do último apagão.
Vejo o carrinho cheio de caldo knorr, extrato de tomate e óleo de soja e imagino a empregada fazendo gordices ao modo tradicional. Ao lado, uma senhora fininha com salmão e alcaparras e o legítimo azeite extra virgem, pensando numa saúde que quer ter e , provavelmente, descendo todos os dias para a academia a fim de manter a forma e a vida por mais tempo.
Lá vem o Omo e penso na força do marketing que leva as famílias a crerem que apenas o sabão que , na verdade, mancha e desbota , dá ‘o branco que a sua família merece’. Gosto de quem compra amaciante porque sugere que gosta mais de si e dos seus, com roupas fofinhas e cheirosas. E quando vejo no carrinho uma vassoura, sempre penso no estado lastimável a que a velha chegou para que fosse trocada. Se for vermelha, penso logo que a bruxa pode voar nas horas vagas. 
E, então, chega a minha hora de pagar, perco o devaneio e , ansiosa, espero para ver quanto me restará após pagar tudo que julguei necessário, útil ou que me faria feliz. Por um tempo.