Férias e… algo mais

Desde que tive Alice, ainda não parei para respirar. Digamos que agora, quase um ano depois, eu estou começando a me centralizar de novo (ou seria descentralizar?).

Desde que engravidei, a’ficha’ de ter um filho ainda não havia caído. Foi tudo muito mágico como se eu própria estivesse na tela de um filme assistindo a mim mesma. Meio onírico, surtado, sei lá. O fato é que eu ainda não conseguia me dar conta de que estava grávida ou, depois,  de que tinha uma filha. É lógico que eu saBIA. Mas o estado consciência e contemplação ainda não chegara. Não.
Até este mês pelo menos.

É que agora eu percebi que tenho uma filha e estou tão apaixonada por ela, por mim, por nós, nossa família,  e pela vida que eu só penso em comemorar, festejar, alegrar-me.

Para completar o brinde, estou de férias na faculdade.

Então, digamos, meu mês de julho vão ser sonhos diários. Muitos.

E, para completar, eu estou apaixonada por cupcakes.

Morte cerebral

Já foi anunciada a morte cerebral de Clodovil. Não tenho nenhuma simpatia por ele, mas também não cultivo qualquer antipatia. Morreu uma figura brasileira, para mim é isto. Mas, ao ver decretada a sua morte cerebral, embora saiba o quão criteriosas são as equipes médicas em casos de homens públicos, fiquei preocupada após o que vi há poucos dias nos hospitais particulares em termos de atendimento e acompanhamento médico aqui nesta capital.

Minha avó também sofreu um A.V.C. ( aos 84 anos ). É pagante de plano de saúde há tempos, mais de trinta anos, nem sei precisar exatamente.  O caos instalado no Hospital Salvador, em sua emergência, e a incompetência de alguns funcionários, me fizeram ter a certeza de que, em pleno terceiro milênio, para uma sociedade que se diz civilizada, é exdrúxulo pensar que se precise gritar para ser atendido como se deve, que não se vejam técnicos em enfermagem e enfermeiros usando luvas nos procedimentos habituais da emergência – como colocação de sonda urinária, que um fax solicitando autorização para o plano de saúde de um paciente em estado grave leve 4 horas para ser passado simplesmente porque o funcionário não reparou no papel que lhe foi entregue e que ficou durante todo o tempo em cima de sua mesa (foi preciso a família gritar) e outras barbaridades do gênero.

Então, como ela está na UTI de um outro hospital agora, após conseguirmos a sua remoção, fiquei pensando no caso de morte cerebral e em como isto é atestado aqui no país. Preocupada, honestamente, porque ela ainda dá sinais de atividade cerebral , fala embolada, mexe os olhos e aperta as mãos das pessoas em sinal de reconhecimento e aprovação ou desaprovação, fiquei temerosa contra negligências usuais no nosso Brasil.

Aqui descobri o que faz a morte cerebral ser confirmada, instigada pelo caso de Clodovil. As famílias deveriam ser bem esclarecidas porque, em caso de um atestado como este, é preciso que não haja sequer uma dúvida. Se possível, parecer de mais de um médico -embora aqui no Brasil não seja uma exigência.

Boicote à mulher

Existem muitas formas de se destruir uma mulher. Muitas.
Uma delas consiste em dia após dia boicotar sua auto-estima, depreciá-la parte a parte, diminuí-la em tudo que sabe fazer, compará-la e menosprezá-la com frases sarcásticas e tiranas.

Bombardeada, muitas vezes ela se esquece de si mesma, carente que esteja de um amor que nunca virá. Não deste homem. E vai entristecendo, silenciosamente a cada aquiescência, tecendo a teia em que ela mesma se perderá. Noutras vezes, brada alto, grita também, despeja os dejetos de sua alma estropiada, de sua auto-estima vilipendiada em ofensas que buscam responder às grosserias que a agridem no cotidiano comezinho. Assim também ela se perde. Perde-se de si mesma.

“Você não sabe gerenciar uma casa.” “Você é a pior dona-de-casa que eu já vi”. “Sua empregada é a pior  e mais incompetente com que já lidei.” “Você é tão boa mãe que dorme de tarde e deixa seu filho com a babá.” “Seu trabalho é fútil”. “Seu hobby  é imbecil, é perda de tempo”.”Para que vai fazer este curso? Não adianta mesmo…” “Isso não vai gerar dinheiro…” “por que saiu de casa?” “Não estava aqui na hora em que precisei”. “Não conto com você”. “Você nunca faz quando é para mim…” ” Vou dormir feliz porque seu time perdeu”.

Se ela não perceber, envereda-se nesta rede de sutis ou explícitos boicotes que, inevitavelmente, a conduzirão, simplesmente, à infelicidade. É que assim, aquiescendo, ela pode esquecer que os parâmetros são outros, esquecer que quem ama cuida, é parceiro, zela por ela e deseja-lhe o progresso, a ascensão, a vitória sem sair do seu lado e apoiá-la nos momentos difíceis e delicados a que a vida expõe toda mulher.

Este boicote é um crime. Mata em vida. Incapacita. Traumatiza. E os efeitos são muito perversos. Às vezes  incuráveis.

De vez em quando aparece em minha vida uma pessoa que me faz ter dúvida de onde é mesmo que fica a linha tênue entre a idiotice  e a bondade. É que eu tenho uma inclinação para ser ‘boazinha’ e, às vezes, muita gente sacana suga.

Tenho sempre receio de julgar mal uma pessoa e aí então aparece uma tendência para crer que a pessoa teve um ataque de regeneração e simplesmente me valoriza ou gosta de mim… mas a danada da dúvida martela a cabeça e fico pensando se não estou mesmo é fazendo papel de otária.

Minha avó sempre disse: ” dá a quem te dá. A quem não te dá, não dá, não. ” Diz ela que os sinos tocam esta canção.

Mas a droga da culpa cristã ou a porcaria da síndrome de mulher boazinha que vai para o céu muitas vezes me faz escolher a outra máxima: ” fazei o bem sem olhar a quem”.

Toco fogo ou passo o bálsamo?

Primeiro dia de aula

De novo você se dirige à sala de aula. De novo você se apresenta. De novo são rostos e mais rostos desconhecidos. Cerca de 60 a cada 100 minutos. Salas superlotadas.

Espera caderneta. Pede para refazer algumas. Acrescenta nomes de alunos. Marca presença e ausência até descobrir aos poucos umas matrículas canceladas. Abandonos.

E começa a coletar papéis. Uma informação, um impresso, um e-mail, um calendário, um manual, um texto, mais outro, outro e outro… ( e você que levou quase um ano tentando deixar sua casa mais magra de papéis)

Então tem que acessar a caderneta on line. Tem que registrar parâmetros de avaliação. Tem que registrar pesos. Datas. Freqüência. E tem que escrever tudo isso de novo no papel – que a tecnologia chegou, mas o papel é documento.

Daqui a uns dias chegam os diagnósticos. As avaliações. As correções exaustivas para qualquer professor. As notas. A segunda chamada. A prova final.

E, depois, mais um semestre.

Acordo com as editoras

Sei não…mas já estou com maus olhos… Depois do acordo, meus livros (e os seus) estão caducos.

Passeando os olhos pelas listas de material escolar, já vejo a exigência de  gramáticas, dicionários e cia, atualizados pelo acordo ortográfico. Cada livrinho destes custa em média 90 reais. E o mini pai-dos-burros, a bagatela de 30 .

Gosto sempre de considerar o valor do salário mínimo como referência. E de pensar em toda a classe média sufocada com os custos, inclusive os da escola particular para os filhos – em Salvador, entre 700 e 950 reais a mensalidade do fundamental e  do médio.

Agora, todos os “livrinhos” não valem mais. Todo mundo troca tudo. Não dá nem para passar de um irmão ou primo para o outro. Nem para comprar no sebo.

Creio, sim, que educação seja investimento. Mas juro que não percebo como as pessoas pagam estas contas.

Pessoas insuportáveis

Existem pessoas que não se contentam em ser chatas. Precisam ser insuportáveis.

Conheço uma senhora que faz questão de ser intragável. Ela não consegue ser feliz sem marcar no seu caderninho diário a dose de encheção de saco alheio. Fico a imaginar ela sentada na cama, com sua caneta preta e uma lista (tenho certeza de que ela a tem) de pessoas (parentes, amigos e conhecidos) no seu rodízio semanal de perturbação da paz alheia.

A vida já não é fácil para todos nós. Todos temos problemas, contas, chateações, tpm’s e aborrecimentos bancários ou seja lá o que for que preocupe cada um de nós, humanos. Mas não. Não basta. Mala sem alça é pouco. Carrapato sanguessuga talvez seja mais apropriado. Não basta grudar: tem que usurpar toda a sua energia, tem que lhe causar uma irritação – mínima que seja, tem que destruir seus estoques de serotonina.

Gente assim vive só. E reclama muito. E faz-se de vítima. E arquiteta, de todas as maneiras possíveis, formas de fazer você se sentir culpada pelas suas dores. Sai pra lá. Que nessa eu não caio. Mas que me aborrece, ah, isso me aborrece mesmo. E muito.